Zumbido é sintoma, não doença: é a percepção de som sem fonte externa [1]. Não existe hoje terapia que elimine a causa do zumbido crônico [2]. O que existe — e funciona — é reduzir o incômodo, tratar a perda auditiva associada e investigar as poucas situações em que o zumbido aponta para outra doença.

Zumbido é sintoma, não doença

Uma metanálise de 83 estudos estimou prevalência agrupada de 14,4% entre adultos, subindo de 9,7% dos 18 aos 44 anos para 23,6% acima dos 65; a forma grave é bem menos comum, 2,3% [3].

Essa diferença é o eixo clínico. A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia separa o zumbido incômodo do não incômodo, e o recente do persistente — seis meses ou mais [1]. O alvo do tratamento é o sofrimento, não o som.

A associação com perda auditiva

A perda auditiva é o principal fator de risco associado, e o tom percebido costuma corresponder às frequências em que há perda [10]. Por isso a avaliação auditiva não é opcional.

A diretriz recomenda avaliação de aparelho auditivo para quem tem zumbido persistente e incômodo com perda auditiva documentada [1], e a amplificação tem grande efeito benéfico sobre a qualidade de vida relacionada à audição na perda leve a moderada [4] — tema da página sobre perda auditiva.

Zumbido pulsátil é outra entidade

Zumbido que pulsa no ritmo do coração não segue a mesma investigação. Numa revisão dedicada ao tema, uma causa foi identificada em mais de 70% dos pacientes avaliados de forma completa, entre causas estruturais, metabólicas e vasculares — nestas, hipertensão intracraniana idiopática e fístulas arteriovenosas durais [5].

Os autores registram que o zumbido pulsátil pode preceder acidente vascular cerebral [5]. Ele exige investigação vascular dirigida, e não entra na regra de que a imagem não é rotina no zumbido.

Zumbido de um ouvido só muda a conduta

A diretriz faz recomendação forte contra exame de imagem no zumbido que não se localiza em um ouvido, não é pulsátil e não vem com alteração neurológica focal nem perda auditiva assimétrica [1].

Lida ao contrário, essa frase é o critério: zumbido unilateral, assimetria auditiva, sinal neurológico ou pulsatilidade são as situações que mudam a investigação. Zumbido de um ouvido só pede avaliação audiológica pronta [1]; e zumbido que aparece junto com perda auditiva súbita de um lado é urgência — avaliação em dias, não em semanas [6].

Como é a investigação

História e exame dirigidos, para identificar condições que, tratadas, podem aliviar o zumbido; e avaliação audiológica completa e pronta quando o zumbido é unilateral, persistente por seis meses ou mais, ou acompanhado de dificuldade auditiva [1]. Imagem apenas nos cenários acima; exame de sangue de rotina não faz parte da investigação do zumbido não pulsátil e simétrico.

O que a evidência mostra que funciona

Terapia cognitivo-comportamental. É a intervenção com melhor sustentação. A revisão Cochrane reuniu 28 estudos e 2.733 participantes: comparada a nenhuma intervenção, a TCC pode reduzir o impacto do zumbido na qualidade de vida, com diferença equivalente a cerca de 11 pontos numa escala de 0 a 100 cuja diferença clinicamente relevante é 7 pontos; comparada ao cuidado audiológico isolado, a diferença também a favorece.

Efeitos adversos foram raros, e não há evidência sobre a manutenção do ganho aos 6 e 12 meses [7]. Uma revisão de atenção primária registra a TCC como o único tratamento que demonstrou melhorar a qualidade de vida no zumbido [8].

Tratar a perda auditiva associada. A diretriz alemã coloca a melhora da audição ao lado da TCC como pilar do manejo [2].

Aconselhamento e educação. Recomendação da diretriz para todo paciente com zumbido persistente e incômodo [1]: entender o mecanismo reduz a interpretação catastrófica que alimenta o sofrimento.

Terapia sonora. É oferecida como opção, não como recomendação [1]. A revisão Cochrane não encontrou evidência de superioridade da terapia sonora sobre lista de espera, placebo ou informação isolada, nem evidência suficiente para preferir aparelho auditivo, gerador de som ou dispositivo combinado entre si; a qualidade da evidência foi baixa [9].

O que é promessa sem evidência

A diretriz recomenda contra o uso rotineiro, para tratar o zumbido persistente e incômodo, de: antidepressivos, anticonvulsivantes, ansiolíticos e medicação intratimpânica; Ginkgo biloba, melatonina, zinco e outros suplementos alimentares; e estimulação magnética transcraniana [1]. Sobre acupuntura, a diretriz não emite recomendação, por insuficiência de evidência [1].

A diretriz alemã chega a conclusão convergente: a evidência é insuficiente quanto aos efeitos de tratamento medicamentoso, terapia sonora e musical e neuromodulação [2].

Isso não significa que nenhuma delas tenha lugar em situações específicas, definidas na consulta — significa que nenhuma se sustenta como tratamento do zumbido em si, e que promessa de eliminação do som não tem respaldo.

Sono e humor

Ansiedade, depressão e insônia acompanham com frequência o zumbido incômodo, e a relação é de mão dupla: são ao mesmo tempo fatores de risco e consequências, com redes cerebrais compartilhadas com transtornos relacionados ao estresse [10]. É por isso que o tratamento com melhor evidência é psicoterapêutico, e que investigar sono e humor faz parte da avaliação.

Quando procurar atendimento

  • Zumbido que pulsa no ritmo do coração — investigação dirigida [5]
  • Zumbido em apenas um ouvido, ou perda auditiva pior de um lado [1]
  • Zumbido que surge junto com perda auditiva súbita: avaliação em dias, não em semanas [6]
  • Zumbido com tontura, alteração da fala, da visão ou da força
  • Zumbido persistente que atrapalha o sono, a concentração ou o humor
  • Zumbido após exposição a ruído intenso

Perguntas frequentes

Zumbido tem cura? Não há hoje terapia que elimine a causa do zumbido crônico [2]. O que a evidência sustenta é reduzir o impacto: terapia cognitivo-comportamental [7,8], tratamento da perda auditiva associada [1,4] e aconselhamento.

Suplementos e Ginkgo biloba ajudam? A diretriz recomenda contra Ginkgo biloba, melatonina, zinco e outros suplementos alimentares para tratar zumbido persistente e incômodo [1].

Preciso de ressonância? Só em cenários definidos: zumbido pulsátil, unilateral, com alteração neurológica focal ou perda auditiva assimétrica [1,5]. Fora deles, a recomendação é forte contra a imagem [1].


Leia também: Perda auditiva: aparelho e implante coclear e Otites: média, externa e serosa

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Referências

  1. Tunkel DE, Bauer CA, Sun GH, Rosenfeld RM, Chandrasekhar SS, Cunningham ER, et al. Clinical practice guideline: tinnitus. Otolaryngol Head Neck Surg. 2014;151(2 Suppl):S1-S40. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599814545325 (PMID: 25273878)

  2. Mazurek B, Hesse G, Dobel C, Kratzsch V, Lahmann C, Sattel H. Chronic Tinnitus. Dtsch Arztebl Int. 2022;119(13):219-25. DOI: https://doi.org/10.3238/arztebl.m2022.0135 (PMID: 35197187)

  3. Jarach CM, Lugo A, Scala M, van den Brandt PA, Cederroth CR, Odone A, et al. Global Prevalence and Incidence of Tinnitus: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Neurol. 2022;79(9):888-900. DOI: https://doi.org/10.1001/jamaneurol.2022.2189 (PMID: 35939312)

  4. Ferguson MA, Kitterick PT, Chong LY, Edmondson-Jones M, Barker F, Hoare DJ. Hearing aids for mild to moderate hearing loss in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2017;9(9):CD012023. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD012023.pub2 (PMID: 28944461)

  5. Narsinh KH, Hui F, Saloner D, Tu-Chan A, Sharon J, Rauschecker AM, et al. Diagnostic Approach to Pulsatile Tinnitus: A Narrative Review. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2022;148(5):476-83. DOI: https://doi.org/10.1001/jamaoto.2021.4470 (PMID: 35201283)

  6. Chandrasekhar SS, Tsai Do BS, Schwartz SR, Bontempo LJ, Faucett EA, Finestone SA, et al. Clinical Practice Guideline: Sudden Hearing Loss (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2019;161(1_suppl):S1-S45. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599819859885 (PMID: 31369359)

  7. Fuller T, Cima R, Langguth B, Mazurek B, Vlaeyen JW, Hoare DJ. Cognitive behavioural therapy for tinnitus. Cochrane Database Syst Rev. 2020;1(1):CD012614. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD012614.pub2 (PMID: 31912887)

  8. Dalrymple SN, Lewis SH, Philman S. Tinnitus: Diagnosis and Management. Am Fam Physician. 2021;103(11):663-71. (PMID: 34060792)

  9. Sereda M, Xia J, El Refaie A, Hall DA, Hoare DJ. Sound therapy (using amplification devices and/or sound generators) for tinnitus. Cochrane Database Syst Rev. 2018;12(12):CD013094. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD013094.pub2 (PMID: 30589445)

  10. Langguth B, de Ridder D, Schlee W, Kleinjung T. Tinnitus: Clinical Insights in Its Pathophysiology — A Perspective. J Assoc Res Otolaryngol. 2024;25(3):249-58. DOI: https://doi.org/10.1007/s10162-024-00939-0 (PMID: 38532055)


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