A palavra "labirintite" virou o nome popular de qualquer tontura, mas ela descreve uma inflamação do labirinto que é rara. Na prática, a maioria das crises vem de outras causas — e cada uma tem um tratamento diferente. A que mais aparece, o VPPB, costuma ser resolvida com uma manobra feita na própria consulta [1,2].

Por que o nome está quase sempre errado

Quem chega dizendo "estou com labirintite" não está sendo impreciso por descuido: é o termo que circula há décadas no Brasil, inclusive entre profissionais de saúde. O problema não é a palavra — é o que ela esconde.

Ao agrupar quadros diferentes sob um rótulo só, ela adia o que importa: identificar a causa. Vertigem posicional, neurite vestibular, migrânea vestibular, Ménière e queda de pressão ao levantar têm condutas distintas.

Tontura, vertigem e desequilíbrio não são a mesma coisa

Vertigem é a ilusão de movimento: o ambiente gira, ou a pessoa gira dentro do ambiente. Tontura é o termo guarda-chuva, que inclui sensação de cabeça leve, flutuação ou instabilidade sem rotação.

Desequilíbrio é a dificuldade de se manter em pé ou de caminhar em linha, sem que nada gire. A distinção interessa porque cada padrão aponta para um grupo diferente de causas, e a consulta começa por ela.

Duração e gatilho: as duas perguntas que organizam o diagnóstico

Uma abordagem consolidada na literatura de emergência organiza a investigação por tempo e gatilho da crise, em vez de pelo tipo de tontura que o paciente descreve — a descrição isolada mostrou-se pouco confiável [3].

Segundos, sempre ao mudar de posição, aponta para VPPB. Horas, com dor de cabeça, sugere migrânea vestibular. De 20 minutos a 12 horas, com perda auditiva flutuante e zumbido do mesmo lado, sugere Ménière [4]. Dias seguidos, uma vez só, sugere neurite vestibular [5].

VPPB: os cristais que se deslocam

É a causa mais comum de vertigem. Num estudo populacional alemão, a prevalência ao longo da vida foi de 2,4% e a de um ano, 1,6%; a duração mediana do episódio foi de duas semanas, e 86% dos afetados precisaram consultar, interromper atividades ou se afastar do trabalho [6].

A crise dura segundos e é disparada por mudança de posição da cabeça — virar na cama, deitar, olhar para cima. O diagnóstico é feito pela manobra de Dix-Hallpike, em que a posição provoca a vertigem e um movimento involuntário característico dos olhos [1].

Neurite vestibular, migrânea vestibular e Ménière

A neurite vestibular é uma perda súbita e unilateral da função vestibular, com vertigem contínua de intensidade moderada a grave por pelo menos 24 horas, sem sintoma auditivo e sem sinal neurológico [5]. Melhora ao longo de dias a semanas.

A migrânea vestibular combina crises vestibulares de 5 minutos a 72 horas com história de enxaqueca e associação temporal entre os dois [7] — tema também tratado na página de enxaqueca e cefaleias.

A doença de Ménière é definida por crises espontâneas de vertigem de 20 minutos a 12 horas, com perda auditiva neurossensorial documentada em frequências baixas e médias no ouvido afetado, e sintomas auditivos flutuantes — audição, zumbido ou plenitude [4].

Hipotensão postural e medicamentos

Nem toda tontura é do ouvido. A sensação de cabeça leve ao levantar rápido costuma ser queda transitória de pressão, não vertigem.

Numa série de 382 pacientes atendidos por tontura em serviço terciário, mais de dois terços usavam cinco ou mais medicamentos [8]. Revisar a lista de remédios faz parte da consulta.

Como é o exame e o que ele responde

A avaliação começa pela história, segue com o exame dos olhos em busca de movimentos involuntários e inclui manobras posicionais. A diretriz recomenda contra imagem e contra testes vestibulares de rotina em quem preenche critérios de VPPB sem sinais discordantes [1].

Também recomenda contra o uso rotineiro de supressores vestibulares — anti-histamínicos e benzodiazepínicos — para tratar o VPPB [1]. Eles mascaram o sintoma sem tratar a causa.

A manobra de reposicionamento

Para o VPPB de canal posterior, a diretriz faz recomendação forte de tratar com manobra de reposicionamento [1]. A revisão Cochrane reuniu 11 ensaios e 745 pacientes: a resolução completa da vertigem passou de 21% no grupo controle para 56% com a manobra de Epley, sem efeitos adversos graves; náusea durante o procedimento ocorreu em 16,7% a 32% [2].

Duas ressalvas honestas. A recorrência após o tratamento é de 36% [2], e a manobra pode não ser tolerada por quem tem problema de coluna cervical [2]. Para outras vestibulopatias periféricas, a reabilitação vestibular tem evidência moderada a forte de benefício [9].

Quando procurar atendimento

Procure pronto-socorro diante de tontura acompanhada de:

  • Alteração da fala, da visão dupla, da força ou da sensibilidade de um lado do corpo
  • Dificuldade para andar desproporcional à tontura, ou queda
  • Dor de cabeça súbita e intensa, diferente das habituais
  • Perda auditiva súbita de um ouvido junto com a vertigem

Procure avaliação otorrinolaringológica se a tontura é recorrente, se vem com zumbido ou perda auditiva de um lado, se limita atividades ou aumenta o risco de queda [1].

Perguntas frequentes

Existe remédio para labirintite? Não existe tratamento único para "labirintite" porque o termo não corresponde a um diagnóstico. A conduta depende da causa: no VPPB, a diretriz recomenda manobra de reposicionamento e recomenda contra o uso rotineiro de supressores vestibulares [1].

A vertigem pode voltar depois da manobra? Pode. A recorrência do VPPB após tratamento foi de 36% na revisão Cochrane [2]. A recorrência não significa que a manobra falhou, e o retratamento é possível.

Preciso de ressonância? Em quem preenche critérios de VPPB e não tem sinais discordantes, a diretriz recomenda contra a imagem [1]. Ela entra quando há sinal neurológico, perda auditiva assimétrica ou quadro que não se encaixa.

Tontura e labirintite dão AVC? A tontura em si não causa AVC, mas um AVC pode se apresentar como tontura. Por isso os sinais de alerta acima levam ao pronto-socorro, e não ao consultório [3].


Leia também: Zumbido no ouvido: o que funciona e o que é promessa e Perda auditiva: aparelho e implante coclear

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Bhattacharyya N, Gubbels SP, Schwartz SR, Edlow JA, El-Kashlan H, Fife T, et al. Clinical Practice Guideline: Benign Paroxysmal Positional Vertigo (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2017;156(3_suppl):S1-S47. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599816689667 (PMID: 28248609)

  2. Hilton MP, Pinder DK. The Epley (canalith repositioning) manoeuvre for benign paroxysmal positional vertigo. Cochrane Database Syst Rev. 2014;2014(12):CD003162. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD003162.pub3 (PMID: 25485940)

  3. Newman-Toker DE, Edlow JA. TiTrATE: A Novel, Evidence-Based Approach to Diagnosing Acute Dizziness and Vertigo. Neurol Clin. 2015;33(3):577-99. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ncl.2015.04.011 (PMID: 26231273)

  4. Basura GJ, Adams ME, Monfared A, Schwartz SR, Antonelli PJ, Burkard R, et al. Clinical Practice Guideline: Ménière's Disease Executive Summary. Otolaryngol Head Neck Surg. 2020;162(4):415-34. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599820909439 (PMID: 32267820)

  5. Strupp M, Bisdorff A, Furman J, Hornibrook J, Jahn K, Maire R, et al. Acute unilateral vestibulopathy/vestibular neuritis: Diagnostic criteria. J Vestib Res. 2022;32(5):389-406. DOI: https://doi.org/10.3233/VES-220201 (PMID: 35723133)

  6. von Brevern M, Radtke A, Lezius F, Feldmann M, Ziese T, Lempert T, et al. Epidemiology of benign paroxysmal positional vertigo: a population based study. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2007;78(7):710-5. DOI: https://doi.org/10.1136/jnnp.2006.100420 (PMID: 17135456)

  7. Lempert T, Olesen J, Furman J, Waterston J, Seemungal B, Carey J, et al. Vestibular migraine: Diagnostic criteria. J Vestib Res. 2022;32(1):1-6. DOI: https://doi.org/10.3233/VES-201644 (PMID: 34719447)

  8. Jeong SS, Chen T, Timor TA, Busch AL, Meyer TA, Nguyen SA, et al. Prevalence of Polypharmacy in Patients With Vestibular and Balance Complaints. Ear Hear. 2023;44(3):506-17. DOI: https://doi.org/10.1097/AUD.0000000000001292 (PMID: 36377041)

  9. McDonnell MN, Hillier SL. Vestibular rehabilitation for unilateral peripheral vestibular dysfunction. Cochrane Database Syst Rev. 2015;1(1):CD005397. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD005397.pub4 (PMID: 25581507)


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