O preenchimento com ácido hialurônico é um procedimento injetável que devolve volume e contorno a regiões do rosto onde o tecido perdeu projeção. Ele age sobre volume, não sobre contração muscular — essa é a diferença em relação à toxina botulínica.

Tem indicação definida em consulta, contraindicação, duração limitada e risco de complicação — incluindo uma que exige atendimento imediato.

O que o preenchimento faz que a toxina botulínica não faz

O rosto é organizado em camadas: pele, gordura subcutânea, sistema musculoaponeurótico superficial, gordura profunda e periósteo sobre o osso [1]. As alterações que aparecem ao longo do tempo não têm todas a mesma origem — parte vem do movimento muscular repetido, parte da redução de volume dos compartimentos de gordura e do deslocamento dos tecidos [1].

A toxina botulínica atua sobre a contração. O preenchimento atua sobre volume e contorno. A avaliação define qual componente predomina. Sobre o outro procedimento, veja Toxina botulínica: o que o procedimento faz e o que ele não faz.

O que o preenchimento não resolve

Preenchedor repõe volume. Não trata pigmentação, não modifica textura de pele e não substitui procedimento cirúrgico quando a alteração principal é excesso de pele. Também não tem a ação sobre colágeno dos produtos desenhados para isso, descritos em Bioestimuladores de colágeno.

Quem não é candidato e quem precisa de avaliação antes

O consenso de especialistas sobre prevenção de complicações coloca a história clínica detalhada como passo central da consulta, junto com o exame da região, o registro fotográfico padronizado e o preparo da pele [2].

Infecção ativa na área a ser tratada e antecedente de hipersensibilidade a componentes do produto são situações que contraindicam ou adiam o procedimento [2]. Nódulos inflamatórios tardios podem ser desencadeados por infecções e outros eventos imunológicos, o que torna relevante informar doenças autoimunes e quadros infecciosos recentes [3].

Quanto tempo dura e por que existe manutenção

Em ensaio clínico randomizado, duplo-cego, com aplicação em metades opostas da face de 48 participantes, a melhora do sulco nasogeniano se manteve até os 9 meses de acompanhamento, que foi o fim do estudo [4].

Esse número descreve um produto, uma região e uma janela de observação. Produtos e respostas individuais diferem. Manutenção existe porque o efeito estético diminui com o tempo — o que não significa que o material tenha desaparecido por completo.

O preenchimento pode ser desfeito

A hialuronidase é uma enzima que degrada o ácido hialurônico e é usada no manejo de complicações de preenchedores desse tipo [5]. Outros injetáveis, como bioestimuladores e toxina botulínica, não são revertidos por ela.

A reversibilidade é real, mas não é apagar. Uma revisão de escopo encontrou apenas cinco ensaios randomizados sobre o assunto, com 53 participantes no total, todos em pele de antebraço, braço ou dorso — e nenhum ensaio randomizado sobre reversão na face ou sobre manejo de isquemia [6].

Revisões clínicas separam situações não emergenciais das complicações emergenciais, que exigem tratamento imediato [7].

Migração de preenchedor: o que os dados mostram

Um estudo transversal com ultrassom em 126 participantes descreveu que a camada subcutânea do lábio tem menos de 1 mm, de modo que boa parte do produto termina em posição intramuscular; abordagens verticais associaram-se a depósito mais profundo e a sinais de deslocamento do material [8].

Uma revisão da literatura sobre complicações em lábios identificou a formação de nódulos como a complicação mais relatada, com migração, alteração de cor e reativação herpética também descritas [9]. Há relato de caso de ácido hialurônico identificado em pálpebra superior dois anos depois de aplicação na região temporal [10].

O que a literatura ainda não fornece é a frequência com que isso acontece: existem relatos e séries, não existe estimativa populacional confiável. Quem afirma um percentual vai além do dado disponível.

Quando procurar atendimento

O comprometimento vascular é raro, e é a razão pela qual este procedimento exige plano de conduta definido. Uma metanálise de casos publicados entre 2004 e 2016 reuniu 93 casos em 30 artigos: a cegueira foi a principal consequência (61%) e 72% não tiveram melhora [11].

Uma revisão de um século de casos publicados identificou 365 novos casos de perda visual entre 2018 e 2023. Dos 318 com desfecho descrito, 6,0% recuperaram a visão por completo, 25,8% parcialmente e 68,2% não recuperaram, e nenhum tratamento se associou de forma estatisticamente significativa à melhora [12].

Procure atendimento imediato — a equipe que aplicou e, se ela não estiver acessível, pronto-socorro — se surgir:

  • dor desproporcional ao procedimento
  • palidez da pele na região tratada ou próxima a ela
  • manchas arroxeadas em rede, tipo mármore, na pele
  • qualquer alteração visual: perda de visão, visão borrada, visão dupla, dor no olho
  • queda de pálpebra associada a dor ou a alteração visual

Procure avaliação, sem caráter de emergência, se aparecer vermelhidão que aumenta, calor local, secreção ou febre, ou se surgir nódulo semanas a meses depois. Nódulos tardios são incomuns: em série de 2.139 pacientes tratados pelo mesmo médico, a incidência foi de 0,33% [13].

Quem pode realizar e o que determina o valor

A aplicação é ato de saúde regulamentado, realizado por profissional habilitado e legalmente autorizado, com produto registrado na Anvisa e em serviço preparado para conduzir uma complicação. Perguntar quem aplica, qual a formação e como a equipe conduz uma intercorrência é razoável antes de agendar.

O valor é definido após a avaliação e depende das regiões avaliadas, do produto, das sessões previstas e da estrutura do atendimento.

Perguntas frequentes

Preenchimento e toxina botulínica são a mesma coisa? Não. A toxina reduz contração muscular; o preenchimento repõe volume. Produtos, indicações e riscos são diferentes.

Se eu não gostar, dá para tirar? O ácido hialurônico pode ser degradado por hialuronidase [5]. A evidência controlada sobre esse uso na face é limitada [6].

Preenchimento migra? Relatos e séries documentam deslocamento de material, inclusive anos depois [8,9,10]. Não há dado que permita afirmar com que frequência ocorre.

Preciso repetir sempre? O efeito diminui com o tempo. Repetir é uma escolha discutida em consulta, não uma consequência obrigatória.


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Gerber PA, Filler T. Static and dynamic anatomy of the face, in particular eyebrows, eyelids and lips. Curr Probl Dermatol. 2023;56:306-312. DOI: https://doi.org/10.1159/000521592 (PMID: 37263207)

  2. Urdiales-Gálvez F, Delgado NE, Figueiredo V, Lajo-Plaza JV, Mira M, Ortíz-Martí F, et al. Preventing the complications associated with the use of dermal fillers in facial aesthetic procedures: an expert group consensus report. Aesthetic Plast Surg. 2017;41(3):667-677. DOI: https://doi.org/10.1007/s00266-017-0798-y (PMID: 28411354)

  3. Convery C, Davies E, Murray G, Walker L. Delayed-onset nodules (DONs) and considering their treatment following use of hyaluronic acid (HA) fillers. J Clin Aesthet Dermatol. 2021;14(7):E59-E67. (PMID: 34840652)

  4. Alimohammadi M, Furman-Assaf S, Nilsson J. A prospective, randomized, double-blind, split-face, comparative study to evaluate the efficacy and safety of DKL23 and Juvéderm Volift for correcting moderate-to-severe nasolabial folds. Aesthet Surg J. 2024;44(11):1218-1226. DOI: https://doi.org/10.1093/asj/sjae133 (PMID: 38874166)

  5. Weber GC, Buhren BA, Schrumpf H, Wohlrab J, Gerber PA. Clinical applications of hyaluronidase. Adv Exp Med Biol. 2019;1148:255-277. DOI: https://doi.org/10.1007/978-981-13-7709-9_12 (PMID: 31482503)

  6. Borzabadi-Farahani A, Mosahebi A, Zargaran D. A scoping review of hyaluronidase use in managing the complications of aesthetic interventions. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(6):1193-1209. DOI: https://doi.org/10.1007/s00266-022-03207-9 (PMID: 36536092)

  7. Kroumpouzos G, Treacy P. Hyaluronidase for dermal filler complications: review of applications and dosage recommendations. JMIR Dermatol. 2024;7:e50403. DOI: https://doi.org/10.2196/50403 (PMID: 38231537)

  8. Harris S, Schelke L, Orlovska M, Wortsman X, Cotofana S, Velthuis P. Ultrasound evaluation of lip anatomy and filler placement: a cross-sectional study of injection accuracy, migration, and demographic variation. Plast Reconstr Surg. 2026;158(1):65e-75e. DOI: https://doi.org/10.1097/PRS.0000000000012772 (PMID: 41494527)

  9. Diwan Z, Trikha S, Etemad-Shahidi S, Parrish N, Rennie C. Evaluation of current literature on complications secondary to lip augmentation following dermal filler injection. J Clin Aesthet Dermatol. 2023;16(7):26-33. (PMID: 37560504)

  10. El Feghaly C, Tawa P. Late-onset upper eyelid edema following temporal hollow correction with hyaluronic acid. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2026;14(4):e7612. DOI: https://doi.org/10.1097/GOX.0000000000007612 (PMID: 41959944)

  11. Sito G, Manzoni V, Sommariva R. Vascular complications after facial filler injection: a literature review and meta-analysis. J Clin Aesthet Dermatol. 2019;12(6):E65-E72. (PMID: 31360292)

  12. Doyon VC, Liu C, Fitzgerald R, Humphrey S, Jones D, Carruthers JDA, et al. Update on blindness from filler: review of prognostic factors, management approaches, and a century of published cases. Aesthet Surg J. 2024;44(10):1091-1104. DOI: https://doi.org/10.1093/asj/sjae091 (PMID: 38630871)

  13. Rivers JK. Incidence and treatment of delayed-onset nodules after VYC filler injections to 2139 patients at a single Canadian clinic. J Cosmet Dermatol. 2022;21(6):2379-2386. DOI: https://doi.org/10.1111/jocd.15013 (PMID: 35451214)


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