Nem todo tremor é Parkinson, e o diagnóstico não sai de um exame de imagem. Ele é clínico: depende do exame neurológico, da história e da evolução ao longo do tempo.

Esta página descreve essa investigação e as etapas de tratamento. Não serve para autoavaliação: a combinação de sinais que define o quadro só é reconhecível em exame presencial.

Os sinais motores

Nos critérios da International Parkinson and Movement Disorder Society, o parkinsonismo é definido pela presença de bradicinesia — lentidão com redução progressiva da amplitude dos movimentos repetidos — associada a tremor de repouso, a rigidez, ou a ambos [1].

Reconhecido o parkinsonismo, o passo seguinte é decidir se a causa é a doença de Parkinson. Os critérios organizam isso em três blocos: sinais que excluem o diagnóstico, sinais de alerta a contrabalançar e achados que aumentam a confiança [1].

Os sintomas não motores que costumam vir antes

Alterações de olfato, constipação e um distúrbio comportamental do sono REM — em que a pessoa "atua" os sonhos — podem preceder em anos os sinais motores, junto com alterações de humor e de cognição [2].

Isso não transforma cada um desses sintomas em sinal de Parkinson: eles são muito mais frequentes por outras causas. Os critérios que combinam esses marcadores em estimativa de probabilidade foram publicados para uso em pesquisa [3]. Levar a queixa à consulta é o caminho; calcular risco por conta própria, não.

Tremor essencial e tremor de Parkinson

A confusão é frequente, e a distinção começa por observações descritíveis. A classificação internacional de tremores organiza o diagnóstico por idade de início, história familiar, distribuição no corpo e — o ponto mais útil aqui — a condição em que o tremor aparece [4].

O tremor da doença de Parkinson costuma surgir com o membro em repouso, apoiado, e diminuir quando a pessoa inicia um movimento voluntário. É frequentemente assimétrico e vem acompanhado de lentidão ou rigidez [1].

O tremor essencial costuma aparecer durante a ação — segurar um copo, levar a colher à boca, escrever —, envolver os dois lados e, muitas vezes, ter história familiar; pode acometer também cabeça e voz [4].

A distinção nem sempre é imediata, e há sobreposição. É por isso que o intervalo entre consultas faz parte do método: a evolução informa.

O diagnóstico é clínico. O que a imagem acrescenta e o que não acrescenta

A ressonância magnética de crânio não confirma doença de Parkinson: serve para procurar outras causas de parkinsonismo, e os exames complementares são reservados a apresentações atípicas [5].

O SPECT de transportador de dopamina pode aumentar a acurácia quando há dúvida sobre a própria existência do parkinsonismo [2] — por exemplo, para separar tremor de origem dopaminérgica de tremor essencial. Ele não distingue a doença de Parkinson dos parkinsonismos atípicos, e um exame alterado não fecha diagnóstico sozinho.

Parkinsonismos que não são doença de Parkinson

A doença de Parkinson é a forma mais comum de parkinsonismo, mas não é a única [2]. Existem quadros induzidos por medicamentos que bloqueiam receptores de dopamina, formas de origem vascular e as síndromes parkinsonianas atípicas, com evolução e resposta ao tratamento diferentes. Diferenciá-las é uma das razões pelas quais o diagnóstico é revisto no acompanhamento.

Princípios de tratamento

O tratamento é sintomático: nenhum medicamento disponível hoje demonstrou modificar o curso da doença [2,5]. O alvo é função e qualidade de vida.

As classes usadas nos sintomas motores são dopaminérgicas: reposição do precursor de dopamina, agonistas dopaminérgicos e inibidores enzimáticos que prolongam a ação da dopamina [2]. Os sintomas não motores costumam exigir abordagens não dopaminérgicas, escolhidas conforme o sintoma [2]. Doses, combinações e ajustes são definidos em consulta.

Com o tempo, parte dos pacientes desenvolve complicações motoras: períodos em que o efeito diminui antes da dose seguinte e movimentos involuntários induzidos pelo tratamento [2].

Fisioterapia e exercício

Não são complemento opcional. Em metanálise de 10 ensaios randomizados com 663 pacientes, fisioterapia mantida por seis meses ou mais associou-se a melhora dos sintomas motores fora do efeito da medicação e a menor dose equivalente de medicação dopaminérgica — com qualidade de evidência baixa a muito baixa segundo os autores [6].

Em metanálise em rede de 48 estudos com 2.977 pacientes, o exercício mostrou efeito positivo sobre qualidade de vida, com resultados favoráveis para dança, exercícios alternativos e intervenções sensório-motoras [7].

Quando a neurocirurgia funcional entra

A estimulação cerebral profunda (DBS) é considerada por perfil de indicação, não por tempo de doença: complicações motoras — flutuações de efeito, discinesias — ou tremor que não responde à medicação [2].

No ensaio randomizado EARLYSTIM, 251 pacientes com complicações motoras precoces (idade média de 52 anos, 7,5 anos de doença) foram alocados para estimulação subtalâmica com tratamento clínico ou tratamento clínico isolado. Em dois anos, o escore de qualidade de vida melhorou 7,8 pontos no grupo com estimulação e piorou 0,2 ponto no grupo clínico [8].

O mesmo estudo registra o outro lado: eventos adversos graves ocorreram em 54,8% do grupo com estimulação e em 44,1% do grupo clínico, e 17,7% tiveram eventos graves relacionados ao implante ou ao dispositivo [8]. A indicação é discutida caso a caso com a neurocirurgia: veja Neurocirurgia funcional.

Quando procurar atendimento

Acione o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro se houver fraqueza, dormência, alteração da fala ou perda visual de início súbito — isso não é distúrbio do movimento, é possível AVC. Veja AVC: sinais, urgência, tratamento e reabilitação.

Procure avaliação neurológica agendada se você ou alguém próximo notou tremor persistente, lentidão para tarefas habituais, mudança na letra, quedas de repetição ou piora apesar do tratamento em curso.

Perguntas frequentes

Tremor na mão já é Parkinson? Não. O tremor tem várias causas, e a condição em que ele aparece — repouso ou ação — orienta o diagnóstico [1,4].

Existe exame de sangue ou de imagem que dê o diagnóstico? Não. O diagnóstico é clínico; exames complementares são reservados a apresentações atípicas e a dúvidas específicas [2,5].

Fazer exercício muda alguma coisa? Fisioterapia mantida por meses e programas de exercício foram associados a melhora de sintomas motores e de qualidade de vida em metanálises, com ressalvas de qualidade de evidência [6,7].


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Postuma RB, Berg D, Stern M, Poewe W, Olanow CW, Oertel W, et al. MDS clinical diagnostic criteria for Parkinson's disease. Mov Disord. 2015;30(12):1591-601. DOI: https://doi.org/10.1002/mds.26424 (PMID: 26474316)
  2. Armstrong MJ, Okun MS. Diagnosis and Treatment of Parkinson Disease: A Review. JAMA. 2020;323(6):548-560. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2019.22360 (PMID: 32044947)
  3. Berg D, Postuma RB, Adler CH, Bloem BR, Chan P, Dubois B, et al. MDS research criteria for prodromal Parkinson's disease. Mov Disord. 2015;30(12):1600-11. DOI: https://doi.org/10.1002/mds.26431 (PMID: 26474317)
  4. Bhatia KP, Bain P, Bajaj N, Elble RJ, Hallett M, Louis ED, et al. Consensus Statement on the classification of tremors, from the task force on tremor of the International Parkinson and Movement Disorder Society. Mov Disord. 2018;33(1):75-87. DOI: https://doi.org/10.1002/mds.27121 (PMID: 29193359)
  5. Bloem BR, Okun MS, Klein C. Parkinson's disease. Lancet. 2021;397(10291):2284-2303. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)00218-X (PMID: 33848468)
  6. Okada Y, Ohtsuka H, Kamata N, Yamamoto S, Sawada M, Nakamura J, et al. Effectiveness of Long-Term Physiotherapy in Parkinson's Disease: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Parkinsons Dis. 2021;11(4):1619-1630. DOI: https://doi.org/10.3233/JPD-212782 (PMID: 34366377)
  7. Lorenzo-García P, Núñez de Arenas-Arroyo S, Cavero-Redondo I, Guzmán-Pavón MJ, Priego-Jiménez S, Álvarez-Bueno C. Physical Exercise Interventions on Quality of Life in Parkinson Disease: A Network Meta-analysis. J Neurol Phys Ther. 2023;47(2):64-74. DOI: https://doi.org/10.1097/NPT.0000000000000414 (PMID: 36730998)
  8. Schuepbach WMM, Rau J, Knudsen K, Volkmann J, Krack P, Timmermann L, et al. Neurostimulation for Parkinson's disease with early motor complications. N Engl J Med. 2013;368(7):610-22. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa1205158 (PMID: 23406026)

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