"Otite" não é uma doença só. A otite média aguda é uma infecção atrás do tímpano e dói; a otite externa é a inflamação do conduto, a chamada otite do nadador; a otite média com efusão é líquido atrás do tímpano sem infecção aguda, e frequentemente não dói. O tratamento das três é diferente.
Por que as três se confundem
O ouvido externo é o conduto entre a orelha e o tímpano. O ouvido médio é a câmara atrás dele, ventilada pela tuba auditiva — por onde, num resfriado, vírus sobem e abrem caminho para bactérias [1]. Como o paciente relata sempre "ouvido", a separação depende do exame: otoscopia e, na criança, otoscopia pneumática [2].
Otite média aguda na criança e a conduta expectante
O quadro típico é dor de ouvido de início agudo com abaulamento do tímpano; em lactente, o sinal pode ser apenas choro e sono ruim [1].
Na revisão Cochrane de 2023, com 13 ensaios e 3.401 crianças, o antibiótico não reduziu a dor em 24 horas e reduziu em cerca de um terço a proporção com dor no segundo e terceiro dia — 20 tratadas para uma se beneficiar. A cada 14 tratadas, uma teve vômito, diarreia ou exantema atribuível a ele [3].
Conduta expectante não é "não tratar": é tratar a dor, orientar sinais de alerta e reavaliar. Um consenso italiano de 2025 fixa esse intervalo em 48 a 72 horas na criança previamente sadia, e reserva o início imediato para quadro grave, criança não vacinada, imunodeprimida ou com condição de base [5].
Esses números descrevem populações estudadas, não o caso individual: quem decide é o médico que examina.
Otite externa e o cotonete
A otite externa aguda é a inflamação difusa do conduto: dói ao puxar a orelha ou ao mastigar, e a audição pode reduzir por obstrução [6].
A diretriz da Academia Americana de Otorrinolaringologia recomenda tratar a dor e recomenda contra antimicrobiano sistêmico como terapia inicial no quadro difuso não complicado [6]; o tratamento é tópico, e quem não responde é reavaliado em 48 a 72 horas. Tímpano perfurado, tubo, diabetes e imunossupressão mudam a conduta [6].
O cotonete é o problema, não a solução. Um levantamento de emergências norte-americanas estimou 263.338 crianças atendidas por lesão de ouvido ligada a haste flexível entre 1990 e 2010; em 73,2% a circunstância foi a limpeza do ouvido, e entre os diagnósticos vieram corpo estranho (29,7%) e perfuração do tímpano (25,3%) [8].
A diretriz de cera orienta não tratar rotineiramente cera assintomática em ouvido examinável e recomenda contra a "vela de ouvido"; a que obstrui é removida em consulta [7].
Otite média com efusão: o ouvido tampado sem dor
É líquido no ouvido médio sem sinais de infecção aguda: a otite que não dói, e por isso passa despercebida [2]. Produz perda auditiva condutiva flutuante — volume da TV alto, pedir para repetir, desatenção na escola, atraso de fala.
A história natural é favorável na maioria dos casos: para a criança sem fatores de risco, observa-se por três meses, e a diretriz recomenda contra corticoide, antibiótico sistêmico, anti-histamínico e descongestionante [2].
Persistindo três meses, indicam-se avaliação auditiva e reavaliação a cada três a seis meses; com efusão bilateral e perda documentada, aconselha-se a família sobre o impacto na fala e na linguagem [2].
Quando o tubo de ventilação entra
A diretriz é explícita sobre o que não indica cirurgia: episódio único de efusão com menos de três meses.
É oferecido quando há efusão bilateral por três meses ou mais e dificuldade auditiva documentada, e pode ser considerado na efusão crônica com sintomas atribuíveis a ela. Na otite aguda de repetição, é oferecido a quem tem efusão na avaliação, não a quem não tem. A adenoidectomia entra como procedimento associado quando há sintoma da adenoide ou a partir dos 4 anos [9].
Ajuste de expectativa: a Cochrane de 2023 descreve melhora pequena da audição e da efusão no curto e médio prazo, sem clareza sobre a manutenção depois disso e com certeza da evidência majoritariamente muito baixa. Boa parte das crianças do grupo controle melhora sozinha, o tubo pode obstruir ou sair antes do previsto, e a efusão pode voltar. A perfuração persistente do tímpano é pouco frequente, 1,26% num dos estudos [10].
Complicações
A otite média crônica supurativa combina perfuração do tímpano com inflamação persistente, e leva a secreção recorrente e perda auditiva — uma das principais causas evitáveis de surdez no mundo. O colesteatoma é o crescimento de epitélio escamoso para dentro do ouvido médio, e pode exigir cirurgia [11]. A mastoidite aguda é rara, 0,02% [4].
Quando procurar atendimento
- Dor de ouvido intensa que não cede com analgesia, ou que dura mais de 48 a 72 horas
- Febre alta com prostração, ou criança abaixo de 2 anos com dor de ouvido
- Secreção saindo do ouvido, persistente ou recorrente
- Ouvido tampado, audição reduzida ou zumbido há semanas
- Criança que aumenta o volume da TV, pede para repetir ou tem atraso de fala
- Perda auditiva de um lado que surge de repente: avaliação em dias, não em semanas — veja perda auditiva
Procure pronto-socorro se houver: inchaço ou dor atrás da orelha, com a orelha deslocada para fora; paralisia de um lado do rosto; tontura intensa com vômitos; rigidez de nuca, confusão ou sonolência excessiva.
Perguntas frequentes
Toda otite precisa de antibiótico? Não. Na otite média aguda leve da criança, a observação com tratamento da dor e reavaliação em 48 a 72 horas é conduta reconhecida [3,5]. Na otite externa não complicada, o tratamento inicial é tópico [6].
Posso usar cotonete se for com cuidado? Não. A limpeza do ouvido é a circunstância mais registrada nas lesões por haste flexível, incluindo perfuração de tímpano [8]. Cera assintomática não precisa ser removida [7].
Meu filho pode nadar com tubo de ventilação? A diretriz não recomenda proibir natação nem protetor de rotina, e trata a otorreia aguda não complicada pelo tubo com gota tópica, sem antibiótico oral [9].
Leia também: Adenoide e adenoidectomia e Zumbido
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
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