Esses sintomas costumam vir do nervo periférico — a fiação entre a medula e o resto do corpo. A neuropatia periférica afeta cerca de 1% dos adultos no mundo, e o diabetes é sua causa mais frequente [1]. A pergunta que organiza a consulta não é "é neuropatia?", e sim "neuropatia de quê?" — a causa determina o tratamento.
O que o paciente descreve
O acometimento costuma ser dependente do comprimento: começa nos axônios mais longos — os dedos dos pés — e sobe com o tempo. É tipicamente simétrico e atinge mais as fibras sensitivas que as motoras [1].
Daí as queixas: queimação, dormência, formigamento, sensibilidade alterada ao toque. Pode haver fraqueza leve e sintomas autonômicos, como queda de pressão ao levantar [1]. O desequilíbrio no escuro entra aqui: quando a informação sensitiva do pé falha, a visão compensa — e no escuro essa compensação some.
Polineuropatia e mononeuropatia
Polineuropatia é o acometimento difuso e simétrico de muitos nervos, o padrão descrito acima. Mononeuropatia é a lesão de um nervo específico, com sintomas no território dele.
O exemplo reconhecível é a síndrome do túnel do carpo, compressão do nervo mediano no punho e o aprisionamento de nervo periférico mais comum do mundo [6]. Ela explica formigamento na mão — não nos pés — e tem tratamento próprio, cirúrgico ou não [6].
Há ainda o formigamento que vem da coluna, por compressão de raiz: outro diagnóstico, outra investigação, outro tratamento. Veja hérnia de disco cervical e hérnia de disco lombar.
Por que a causa muda tudo
Existem mais de 200 causas descritas [1]. A investigação procura primeiro as que têm conduta própria: diabetes — mais de 50% das neuropatias em populações ocidentais [1]; deficiência de vitamina B12, avaliada com os metabólitos correspondentes; álcool; medicamentos, com destaque para quimioterápicos e alguns antirretrovirais; gamopatias monoclonais; e causas hereditárias, como a doença de Charcot-Marie-Tooth [1].
Tireoide e causas autoimunes entram conforme o quadro [3].
A investigação inicial recomendada é enxuta: glicemia, dosagem de B12 com metabólitos e eletroforese de proteínas séricas com imunofixação [1]. Em quem não tem causa conhecida, acrescentam-se hemograma, painel metabólico e teste de tolerância à glicose [2]. Exames de rotina em excesso não melhoram o diagnóstico [2].
Uma expectativa honesta: mesmo após a investigação completa, até 27% dos adultos com neuropatia não têm causa identificada [1]. Isso não a torna inútil — ela excluiu as causas tratáveis.
O papel da eletroneuromiografia
A eletroneuromiografia responde a perguntas específicas: onde está a lesão, que fibra está acometida, se o problema é do axônio ou da mielina, e se o padrão é difuso ou de um nervo só. Separa polineuropatia de mononeuropatia e de radiculopatia.
Ela não é obrigatória em todo caso. Nas polineuropatias distais e simétricas típicas, o exame acrescenta custo e a evidência que sustenta seu uso rotineiro é limitada [2]. No túnel do carpo, informa a extensão do comprometimento axonal, mas o benefício dessa informação para o paciente não está estabelecido [6]. Quem pede o exame é o médico que examinou, com uma pergunta em mente: veja exames neurológicos.
Características atípicas — assimetria, sintomas fora do padrão dependente do comprimento, predomínio motor, instalação aguda ou subaguda, envolvimento autonômico importante — justificam avaliação com neurologista [2].
Como o tratamento se organiza
São duas frentes, e não se substituem. A primeira é tratar a causa — a única que muda a trajetória do nervo. No diabetes, o controle glicêmico intensivo reduz de forma substancial a incidência de polineuropatia no tipo 1; no tipo 2, o efeito é menor [2]. O manejo envolve metas cardiometabólicas individualizadas [4].
A segunda é tratar a dor neuropática. Há evidência consistente para três classes: ligantes da subunidade α2-δ do canal de cálcio, inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina e antidepressivos tricíclicos [1,2]. Combinações podem trazer benefício adicional [1]. A escolha é de consulta.
Ajuste de expectativa: a dor frequentemente persiste apesar do tratamento medicamentoso, e a reversão completa da lesão do nervo é incomum mesmo quando existe tratamento para a causa [1].
Os pés na neuropatia diabética
Quando a sensibilidade protetora diminui, o pé deixa de avisar. Uma bolha, um sapato apertado ou um objeto dentro do calçado evoluem sem dor. É por isso que a amputação de membro inferior está entre as consequências mais sérias da neuropatia diabética [5].
O manejo recomendado é multidisciplinar e voltado à prevenção das complicações do pé [4]. Na prática: olhar os pés todos os dias, inclusive entre os dedos e a sola; usar calçado que não aperte; não andar descalço; e ter os pés examinados nas consultas de rotina, não só quando algo dói.
Quando procurar atendimento
Acione o SAMU (192) se a fraqueza ou a dormência se instalou em segundos a minutos, ou veio com alteração da fala ou do rosto. Instalação súbita não é o padrão da neuropatia e levanta a hipótese de AVC: veja AVC.
Vá ao pronto-socorro diante de ferida, bolha, rachadura com secreção, vermelhidão ou mudança de cor no pé de quem tem diabetes e perda de sensibilidade — mesmo sem dor. A ausência de dor não indica que o problema é pequeno.
Procure avaliação sem esperar a rotina diante de fraqueza que progride em dias, dormência que sobe pelas pernas, dificuldade para urinar junto aos sintomas ou sintomas claramente assimétricos.
Perguntas frequentes
Formigamento na mão é sempre túnel do carpo? Não. Pode ser túnel do carpo, polineuropatia com acometimento de mãos ou compressão de raiz na coluna cervical. O exame clínico separa, e a eletroneuromiografia ajuda a localizar a lesão [6].
Vitamina B12 resolve? Resolve quando a deficiência de B12 é a causa — por isso ela é pesquisada logo no início [1]. Repor vitamina sem deficiência documentada não trata neuropatia de outra origem.
A neuropatia tem cura? Depende da causa. A reversão completa da lesão do nervo é incomum mesmo quando há tratamento disponível [1]. Controlar a causa é o que evita a progressão.
Preciso fazer o exame antes da consulta? Não. A eletroneuromiografia responde a uma pergunta formulada depois do exame clínico [2].
Agende uma avaliação.
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
- Mauermann ML, Staff NP. Peripheral Neuropathy: A Review. JAMA. 2026;335(3):255-266. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2025.19400 (PMID: 41247746)
- Callaghan BC, Price RS, Feldman EL. Distal Symmetric Polyneuropathy: A Review. JAMA. 2015;314(20):2172-2181. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2015.13611 (PMID: 26599185)
- Barrell K, Smith AG. Peripheral Neuropathy. Med Clin North Am. 2018;103(2):383-397. DOI: https://doi.org/10.1016/j.mcna.2018.10.006 (PMID: 30704689)
- Sloan G, Selvarajah D, Tesfaye S. Pathogenesis, diagnosis and clinical management of diabetic sensorimotor peripheral neuropathy. Nat Rev Endocrinol. 2021;17(7):400-420. DOI: https://doi.org/10.1038/s41574-021-00496-z (PMID: 34050323)
- Selvarajah D, Kar D, Khunti K, Davies MJ, Scott AR, Walker J, et al. Diabetic peripheral neuropathy: advances in diagnosis and strategies for screening and early intervention. Lancet Diabetes Endocrinol. 2019;7(12):938-948. DOI: https://doi.org/10.1016/S2213-8587(19)30081-6 (PMID: 31624024)
- Padua L, Coraci D, Erra C, Pazzaglia C, Paolasso I, Loreti C, et al. Carpal tunnel syndrome: clinical features, diagnosis, and management. Lancet Neurol. 2016;15(12):1273-1284. DOI: https://doi.org/10.1016/S1474-4422(16)30231-9 (PMID: 27751557)
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