Manchas escuras no rosto não são todas iguais e não respondem às mesmas condutas. Melasma, melanose solar e hiperpigmentação pós-inflamatória se parecem a olho nu e têm origens diferentes.

Antes de qualquer coisa: mancha que muda de cor, de tamanho ou de formato não é assunto de tratamento estético. É avaliação dermatológica, e este texto explica por quê.

Os três quadros que mais se confundem

Melasma é uma discromia multifatorial que resulta da exposição a fatores externos, como a radiação solar, e a fatores hormonais, como hormônios sexuais e gestação, além de inflamação da pele — inclusive a causada por procedimentos estéticos — em pessoas geneticamente predispostas [1].

Melanose solar é a mancha plana que aparece em áreas de exposição solar crônica, e uma revisão sistemática de 41 ensaios clínicos mostra que ela responde de forma bem diferente conforme a modalidade escolhida [2].

Hiperpigmentação pós-inflamatória é a mancha que surge depois de uma inflamação na pele — acne, dermatite, ou um procedimento. Uma revisão sistemática de 48 estudos com 1.356 pessoas de pele mais pigmentada descreve seu curso como crônico uma vez instalada e o tratamento como frequentemente difícil [3].

A conduta difere porque a origem difere. Tratar melasma como se fosse melanose solar é um dos erros com maior potencial de piorar o quadro.

Mancha também não é endereçada por injetáveis: toxina botulínica e preenchimento atuam sobre outros mecanismos, descritos em Harmonização facial.

Melasma é crônico: o que isso significa

Uma revisão brasileira sobre tratamento de melasma afirma que não há tratamento curativo disponível e descreve as estratégias existentes como de controle e prevenção [4]. O consenso latino-americano usa a mesma descrição: distúrbio crônico e recidivante [5].

Isso muda a conversa. O objetivo não é eliminar, é controlar; e o consenso recomenda que, uma vez alcançada a remissão clínica, o paciente mantenha os agentes tópicos despigmentantes e a fotoproteção rigorosa para prevenir recidiva [5].

Quem promete cura de melasma está prometendo o que a literatura não sustenta.

Fotoproteção e fator hormonal

A fotoproteção não é coadjuvante. Uma revisão sistemática com metanálise de ensaios randomizados encontrou que o uso de filtro solar cobrindo o espectro visível e o ultravioleta aumenta a eficácia do tratamento tópico em comparação com a proteção apenas contra ultravioleta [6].

O componente hormonal está descrito na fisiopatologia — hormônios sexuais e gestação entre os fatores desencadeantes [1] — e é por isso que a avaliação pergunta sobre gestação, contracepção e reposição hormonal. Nenhuma dessas condutas é alterada por decisão estética.

O consenso latino-americano coloca a mitigação dos gatilhos conhecidos e a fotoproteção rigorosa como o primeiro passo, antes da terapia ativa [5].

As linhas de tratamento, por classe

O tratamento é organizado em camadas, e a escolha depende de características individuais como gestação, tratamentos anteriores e sensibilidade da pele [5].

  • Agentes tópicos despigmentantes, primeira linha na maior parte dos casos. A revisão sistemática de intervenções de uso domiciliar encontrou confiança na evidência variando de muito baixa a alta conforme o agente [6].
  • Terapia sistêmica, em situações selecionadas [5].
  • Procedimentos — peelings químicos, microagulhamento e laser — como recurso adicional, não como ponto de partida [5].

A revisão de tratamento reforça que a reavaliação periódica faz parte do plano, com ajuste quando o objetivo não é alcançado [5]. Nenhuma dessas classes é indicada por catálogo.

Por que procedimento agressivo pode piorar melasma

Este é o ponto que mais separa conduta médica de venda de sessão. A inflamação da pele — incluindo a provocada por procedimentos estéticos — está listada entre os fatores que desencadeiam melasma [1].

A revisão sistemática sobre hiperpigmentação pós-inflamatória em pele de cor registra que o laser foi a única intervenção com resolução completa em um subgrupo, mas relata também casos de agravamento da mancha após o tratamento, e conclui que falta eficácia robusta em todas as modalidades analisadas [3].

A diretriz de terapia a laser da pele recomenda cautela no tratamento de lesões com aumento de melanócitos [7]. O detalhamento de tecnologias e fototipos está em Lasers e tecnologias.

Quando procurar atendimento

A maior parte das manchas faciais é benigna. Ainda assim, há um grupo de sinais que muda o destino da consulta.

Procure avaliação dermatológica, e não tratamento estético, diante de mancha que:

  • muda de cor, de tamanho ou de formato
  • tem bordas irregulares ou mais de uma cor
  • sangra, coça de forma persistente, descama ou não cicatriza
  • é única, diferente das demais, ou apareceu recentemente em adulto

O diagnóstico de melanoma é clínico e deve sempre ser confirmado por dermatoscopia; havendo suspeita, o exame histopatológico é sempre necessário [8]. Nenhuma dessas etapas é substituída por procedimento estético.

Procure a equipe que realizou um procedimento se a área tratada escurecer, avermelhar de forma crescente, doer ou apresentar secreção.

Quem realiza e o que determina o valor

Diagnóstico e tratamento de discromia são atos médicos, realizados por profissional habilitado e legalmente autorizado, com produtos regularizados na Anvisa. O valor é definido após a avaliação e depende do diagnóstico, das classes indicadas e do acompanhamento previsto.

Perguntas frequentes

Melasma tem cura? A literatura recuperada afirma que não há tratamento curativo disponível [4] e descreve o quadro como crônico e recidivante [5]. O tratamento é de controle, com manutenção após a remissão.

Posso fazer laser no melasma? Procedimento não é primeira linha [5], e há relato de agravamento da mancha após tratamento com laser em pele mais pigmentada [3]. É decisão de avaliação, com o quadro estabilizado.

Filtro solar comum resolve? A evidência favorece filtro que cubra também a luz visível, e não apenas o ultravioleta, quando associado ao tratamento tópico [6].

Minha mancha mudou de formato. É melasma? Mancha que muda de cor, tamanho ou formato precisa de avaliação dermatológica antes de qualquer tratamento estético [8].


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Espósito ACC, Cassiano DP, da Silva CN, Lima PB, Dias JAF, Hassun K, et al. Update on Melasma-Part I: Pathogenesis. Dermatol Ther (Heidelb). 2022;12(9):1967-1988. DOI: https://doi.org/10.1007/s13555-022-00779-x (PMID: 35904706)
  2. Mardani G, Nasiri MJ, Namazi N, Farshchian M, Abdollahimajd F. Treatment of Solar Lentigines: A Systematic Review of Clinical Trials. J Cosmet Dermatol. 2025;24(4):e70133. DOI: https://doi.org/10.1111/jocd.70133 (PMID: 40145274)
  3. Mar K, Khalid B, Maazi M, Ahmed R, Wang OJE, Khosravi-Hafshejani T. Treatment of Post-Inflammatory Hyperpigmentation in Skin of Colour: A Systematic Review. J Cutan Med Surg. 2024;28(5):473-480. DOI: https://doi.org/10.1177/12034754241265716 (PMID: 39075672)
  4. Cassiano DP, Espósito ACC, da Silva CN, Lima PB, Dias JAF, Hassun K, et al. Update on Melasma-Part II: Treatment. Dermatol Ther (Heidelb). 2022;12(9):1989-2012. DOI: https://doi.org/10.1007/s13555-022-00780-4 (PMID: 35906506)
  5. Ocampo-Candiani J, Alas-Carbajal R, Bonifaz-Araujo JF, Marín-Castro H, Valenzuela-Ahumada F, Véliz-Barandiarán JL, et al. Latin American consensus on the treatment of melasma. Int J Dermatol. 2025;64(3):499-512. DOI: https://doi.org/10.1111/ijd.17522 (PMID: 39415312)
  6. Pennitz A, Kinberger M, Avila Valle G, Passeron T, Nast A, Werner RN. Self-applied topical interventions for melasma: a systematic review and meta-analysis of data from randomized, investigator-blinded clinical trials. Br J Dermatol. 2022;187(3):309-317. DOI: https://doi.org/10.1111/bjd.21244 (PMID: 35290681)
  7. Paasch U, Zidane M, Baron JM, Bund T, Cappius HJ, Drosner M, et al. S2k guideline: Laser therapy of the skin. J Dtsch Dermatol Ges. 2022;20(9):1248-1267. DOI: https://doi.org/10.1111/ddg.14879 (PMID: 36098675)
  8. Garbe C, Amaral T, Peris K, Hauschild A, Arenberger P, Basset-Seguin N, et al. European consensus-based interdisciplinary guideline for melanoma. Part 1: Diagnostics: Update 2022. Eur J Cancer. 2022;170:236-255. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ejca.2022.03.008 (PMID: 35570085)

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