A hérnia de disco cervical é o deslocamento de parte do disco entre duas vértebras do pescoço. Quando esse material irrita ou comprime uma raiz nervosa, aparece a dor que desce pelo braço, com formigamento e às vezes perda de força — o quadro chamado de radiculopatia cervical.

Boa parte desses casos melhora sem cirurgia, e a decisão de operar depende do quadro clínico e da sua evolução, não do tamanho da hérnia na imagem.

Duas dores diferentes: o pescoço e o braço

Separar essas duas dores organiza a consulta inteira.

Dor cervical axial. Fica no pescoço, entre a nuca e os ombros, piora com postura e carga e costuma ter origem em várias estruturas ao mesmo tempo. Não indica, por si só, compressão de nervo.

Radiculopatia cervical. É a dor em faixa que sai do pescoço e desce pelo braço, geralmente acompanhada de formigamento, dormência ou fraqueza. O território depende do nível comprometido.

Na anatomia habitual, o acometimento da raiz C6 tende a dar sintomas na face lateral do braço, no polegar e no indicador; a raiz C7, no dedo médio; a raiz C8, no dedo mínimo. É por isso que o exame físico vale tanto quanto a imagem: ele diz qual raiz está envolvida.

O laudo costuma assustar mais que o quadro

Este ponto é o mais mal servido pela internet. Em estudo com 1.211 voluntários sem sintomas, 87,6% apresentavam abaulamento discal na ressonância cervical, incluindo a maioria das pessoas na faixa dos 20 anos [1].

No mesmo grupo assintomático, compressão da medula apareceu em 5,3% e alteração de sinal dentro da medula em 2,3%, ambas mais frequentes após os 50 anos [1].

Ou seja: achado degenerativo no laudo cervical é comum em quem não tem sintoma nenhum. O diagnóstico se faz cruzando queixa, exame físico e imagem — nessa ordem. A explicação detalhada dos termos do laudo está na página de hérnia de disco lombar, e vale igualmente para o pescoço.

A história natural costuma ser favorável

Em ensaio randomizado sueco com 63 pacientes com radiculopatia cervical, um grupo foi operado e depois reabilitado e o outro recebeu apenas um programa estruturado de fisioterapia [2].

Os dois grupos melhoraram de forma significativa em incapacidade, dor cervical e dor no braço em relação ao início [2]. A cirurgia trouxe melhora mais rápida no primeiro ano, e as diferenças entre os grupos diminuíram em dois anos. Os autores concluíram que a fisioterapia estruturada deve ser tentada antes de se optar pela cirurgia [2].

No seguimento de 5 a 8 anos da mesma população, o grupo operado manteve melhor resultado em incapacidade e dor cervical, sem diferença significativa na dor do braço nem no estado geral de saúde [3].

O que o tratamento conservador resolve

A diretriz da North American Spine Society para radiculopatia cervical de origem degenerativa reúne as opções não cirúrgicas e o que sustenta cada uma [4]. Na prática, o conjunto costuma incluir:

  • manter a atividade possível, com ajuste temporário de carga e de postura de trabalho;
  • analgesia orientada em consulta;
  • fisioterapia com exercício específico para o pescoço e progressão gradual;
  • bloqueio radicular guiado, em casos selecionados de dor refratária.

O objetivo desse período não é "esperar passar". É acompanhar com critério e reavaliar, porque a conduta muda se o quadro mudar.

Quando a cirurgia entra

A indicação se apoia na clínica, não no tamanho da hérnia:

  1. Sinais de mielopatia — compressão da medula, e não só da raiz. Muda a urgência (ver abaixo).
  2. Déficit motor relevante ou progressivo — perda de força que piora ao longo de dias a semanas.
  3. Dor radicular incapacitante que não cede após semanas de tratamento conservador bem conduzido, com imagem compatível com o quadro clínico.

Fora dessas situações, operar não costuma oferecer vantagem sobre manter o tratamento clínico bem feito.

Radiculopatia e mielopatia: a diferença que muda tudo

Radiculopatia é compressão de uma raiz nervosa: dor, formigamento e fraqueza em um território do braço. Mielopatia é compressão da própria medula, e se manifesta de outro jeito — perda de destreza fina nas mãos, alteração da marcha e do equilíbrio, alteração urinária.

A mielopatia é progressiva e tende a ter indicação cirúrgica mais precoce [5]. É por isso que ela tem página própria: estenose cervical e mielopatia.


Quando procurar atendimento

Procure avaliação médica em poucos dias diante de perda de força nova no braço ou na mão, ou de dor no braço que não cede com o tratamento em curso.

Procure atendimento de urgência diante de qualquer um destes sinais, que sugerem comprometimento da medula e não apenas da raiz:

  • dificuldade nova para tarefas finas com as mãos — abotoar, escrever, pegar moedas, girar a chave;
  • alteração da marcha ou do equilíbrio, com sensação de andar inseguro ou quedas;
  • alteração urinária nova, como urgência ou retenção;
  • piora rápida da força em braços ou pernas, especialmente dos dois lados.

Procure atendimento também em caso de dor cervical após trauma, dor com febre, ou dor em paciente com câncer, imunossupressão ou osteoporose.


Perguntas frequentes

Hérnia de disco cervical some? O material herniado pode reduzir ao longo dos meses, e a melhora dos sintomas costuma vir antes disso. O que define a conduta é a evolução clínica, não a imagem repetida.

Posso fazer exercício com hérnia cervical? Em geral sim, com orientação. Exercício específico para o pescoço faz parte do tratamento estudado [2]. O tipo e a carga se ajustam à fase do quadro.

Colar cervical ajuda? O uso prolongado não é a regra. Quando indicado, costuma ser por período curto e com objetivo definido. A orientação é individual e deve ser dada em consulta.

Preciso repetir a ressonância? Não como rotina. A imagem é repetida quando há mudança do quadro, déficit novo ou planejamento cirúrgico.


Leia também


Agende uma avaliação.

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Nakashima H, Yukawa Y, Suda K, Yamagata M, Ueta T, Kato F. Abnormal findings on magnetic resonance images of the cervical spines in 1211 asymptomatic subjects. Spine (Phila Pa 1976). 2015;40(6):392-8. DOI: https://doi.org/10.1097/BRS.0000000000000775 (PMID: 25584950)
  2. Engquist M, Löfgren H, Öberg B, Holtz A, Peolsson A, Söderlund A, et al. Surgery versus nonsurgical treatment of cervical radiculopathy: a prospective, randomized study comparing surgery plus physiotherapy with physiotherapy alone with a 2-year follow-up. Spine (Phila Pa 1976). 2013;38(20):1715-22. DOI: https://doi.org/10.1097/BRS.0b013e31829ff095 (PMID: 23778373)
  3. Engquist M, Löfgren H, Öberg B, Holtz A, Peolsson A, Söderlund A, et al. A 5- to 8-year randomized study on the treatment of cervical radiculopathy: anterior cervical decompression and fusion plus physiotherapy versus physiotherapy alone. J Neurosurg Spine. 2017;26(1):19-27. DOI: https://doi.org/10.3171/2016.6.SPINE151427 (PMID: 27564856)
  4. Bono CM, Ghiselli G, Gilbert TJ, Kreiner DS, Reitman C, Summers JT, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of cervical radiculopathy from degenerative disorders. Spine J. 2011;11(1):64-72. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spinee.2010.10.023 (PMID: 21168100)
  5. Fehlings MG, Tetreault LA, Riew KD, Middleton JW, Aarabi B, Arnold PM, et al. A clinical practice guideline for the management of patients with degenerative cervical myelopathy: recommendations for patients with mild, moderate, and severe disease and nonmyelopathic patients with evidence of cord compression. Global Spine J. 2017;7(3 Suppl):70S-83S. DOI: https://doi.org/10.1177/2192568217701914 (PMID: 29164035)

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica.

Precisa de uma avaliação?

A recepção informa agenda, convênios e atendimento particular.

Agende uma consulta