Sim. Num osso enfraquecido pela osteoporose, uma vértebra pode ceder com um esforço comum — levantar uma sacola, tossir — e às vezes sem evento identificável. Parte dessas fraturas dói muito; outra parte não dói e aparece num exame feito por outro motivo.

E aqui está o ponto que mais se erra: a fratura é o sinal. A doença é o osso.

Como uma vértebra fratura sem queda

A vértebra é um bloco ósseo que sustenta carga, e a osteoporose reduz a resistência desse bloco. Quando ela cai abaixo da carga do dia a dia, o bloco se deforma ou colapsa, em geral achatando a frente. Daí "fratura por fragilidade": a força é comum; o osso não.

O quadro típico e o que passa despercebido

O quadro clássico é dor lombar ou torácica de início súbito no idoso, que piora ao levantar-se, ao mudar de posição e ao tossir, e alivia deitado.

Mas boa parte dessas fraturas não é diagnosticada. Num estudo internacional com 2.451 mulheres na pós-menopausa, comparar a leitura local com a central deu taxa de falso-negativo de 34% — 46,5% na América Latina [3]. A fratura estava na imagem e não foi reportada; vale revisar exames antigos quando há suspeita.

Perda de altura e cifose

Cada vértebra em cunha rouba altura e inclina a coluna para a frente. Somadas, produzem perda de estatura e a cifose torácica que a família chama de "corcunda".

Não é postura nem envelhecimento inevitável: é consequência estrutural. Quando a cifose vira o problema principal, a discussão passa a ser de deformidade — tema de escoliose e deformidade do adulto.

O maior erro: tratar a fratura e não tratar o osso

Uma fratura vertebral é o aviso mais forte que o esqueleto dá. Clínicas ou subclínicas, associam-se a risco cerca de 5 vezes maior de novas fraturas vertebrais e de 2 a 3 vezes maior em outros locais [1]. Entre mulheres que tiveram uma fratura vertebral nova nos grupos placebo de quatro ensaios, 19,2% tiveram outra no ano seguinte [2].

Ainda assim, a maioria das pessoas de maior risco que já fraturou não recebe diagnóstico de osteoporose nem tratamento [1]. Na consulta: analgesia, colete e repouso cuidam do episódio; sem investigar e tratar o osso, o próximo já está a caminho.

A investigação

Depois de uma fratura por fragilidade, o roteiro habitual inclui densitometria óssea, exames de sangue e urina para causas secundárias e imagem da coluna, para achar fraturas antigas.

Entre as causas secundárias mais lembradas: distúrbios da tireoide e da paratireoide, doenças que reduzem a absorção intestinal, doença renal crônica, deficiência de hormônios sexuais e uso prolongado de corticosteroides.

E nem toda vértebra colapsada é osteoporótica: fratura em pessoa jovem, história de câncer, febre ou emagrecimento pedem investigar outras causas.

O tratamento conservador e seu prazo

A maior parte é tratada sem cirurgia: controle da dor prescrito pelo médico, mobilização precoce conforme a dor permite, órtese quando indicada e retomada progressiva da caminhada.

A dor costuma ceder ao longo de semanas, à medida que a vértebra consolida — nos estudos, considera-se aguda a fratura de menos de seis semanas [5]. Se não ceder no prazo combinado, a reavaliação é obrigatória: pode haver nova fratura, consolidação ruim ou outra causa.

Repouso prolongado no leito se evita: acelera perda óssea e muscular e aumenta o risco de queda.

Vertebroplastia e cifoplastia: o que a evidência mostra

São procedimentos em que se injeta cimento ósseo no corpo vertebral, por via percutânea; na cifoplastia, um balão é insuflado antes. É um dos temas mais controversos da coluna: a evidência de melhor qualidade não sustenta o cimento como conduta de rotina, e o que segue em aberto é um subgrupo estreito — fratura muito recente com dor intensa que não responde ao tratamento clínico [4,5]. A revisão registra ainda eventos adversos graves, como osteomielite e compressão medular [4].

O confronto entre os ensaios, o perfil de quem tende a se beneficiar, o que se sente no procedimento e o bloco de complicações estão em vertebroplastia e cifoplastia: o que se sabe. Seja qual for a decisão, ela não substitui o tratamento do osso, tratado abaixo.

Prevenção de queda no mesmo plano

Tratar o osso reduz o risco de fratura; reduzir queda também. Uma revisão Cochrane com 108 ensaios e 23.407 participantes mostrou, com alta certeza, que programas de exercício reduzem a taxa de quedas em idosos da comunidade em 23% — os que funcionam são de equilíbrio e função, isolados ou com fortalecimento [6].

Somam-se a revisão dos medicamentos, a correção da visão e a adaptação da casa — tapetes, iluminação, barra no banheiro.

Quando procurar atendimento

Dor lombar ou torácica de início súbito em idoso merece avaliação, mesmo sem queda.

Procure pronto-socorro imediatamente se, junto com a dor, houver:

  • perda de força nas pernas ou dificuldade nova para andar;
  • dormência que sobe pelas pernas ou perda de sensibilidade no períneo;
  • retenção ou perda de controle da urina ou das fezes.

Déficit neurológico após fratura indica compressão de estruturas nervosas: a avaliação é urgente.

Procure avaliação em dias se houver febre, emagrecimento sem explicação, história de câncer ou dor que não cede deitado.

Perguntas frequentes

Preciso usar colete? Depende do padrão da fratura e da dor, e quem define é o médico. É apoio temporário para permitir movimento com menos dor, não tratamento do osso.

Se a fratura não doeu, ela conta? Conta. Fratura vertebral sem dor tem o mesmo peso como marcador de risco de novas fraturas [1].

Posso voltar a caminhar e a treinar? Sim, com progressão orientada. Exercícios de equilíbrio e função reduzem quedas [6], e a inatividade piora osso e músculo.


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Referências

  1. LeBoff MS, Greenspan SL, Insogna KL, Lewiecki EM, Saag KG, Singer AJ, et al. The clinician's guide to prevention and treatment of osteoporosis. Osteoporos Int. 2022;33(10):2049-102. DOI: https://doi.org/10.1007/s00198-021-05900-y (PMID: 35478046)
  2. Lindsay R, Silverman SL, Cooper C, Hanley DA, Barton I, Broy SB, et al. Risk of new vertebral fracture in the year following a fracture. JAMA. 2001;285(3):320-3. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.285.3.320 (PMID: 11176842)
  3. Delmas PD, van de Langerijt L, Watts NB, Eastell R, Genant H, Grauer A, et al. Underdiagnosis of vertebral fractures is a worldwide problem: the IMPACT study. J Bone Miner Res. 2005;20(4):557-63. DOI: https://doi.org/10.1359/JBMR.041214 (PMID: 15765173)
  4. Buchbinder R, Johnston RV, Rischin KJ, Homik J, Jones CA, Golmohammadi K, et al. Percutaneous vertebroplasty for osteoporotic vertebral compression fracture. Cochrane Database Syst Rev. 2018;11(11):CD006349. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD006349.pub4 (PMID: 30399208)
  5. Clark W, Bird P, Gonski P, Diamond TH, Smerdely P, McNeil HP, et al. Safety and efficacy of vertebroplasty for acute painful osteoporotic fractures (VAPOUR): a multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2016;388(10052):1408-16. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(16)31341-1 (PMID: 27544377)
  6. Sherrington C, Fairhall NJ, Wallbank GK, Tiedemann A, Michaleff ZA, Howard K, et al. Exercise for preventing falls in older people living in the community. Cochrane Database Syst Rev. 2019;1(1):CD012424. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD012424.pub2 (PMID: 30703272)

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