A grande maioria das dores de cabeça recorrentes é cefaleia primária — enxaqueca ou cefaleia do tipo tensional — e não sinal de doença estrutural do cérebro. O diagnóstico é clínico: história da dor, padrão dos episódios e exame neurológico, sem necessidade de imagem na maior parte dos casos.

A consulta serve para nomear o tipo de cefaleia, verificar se há causa secundária a investigar e organizar um plano de tratamento agudo e, quando indicado, preventivo.

Cefaleia primária e cefaleia secundária: por que a diferença importa

Cefaleia primária é aquela em que a dor é a própria doença. Cefaleia secundária é sintoma de outra condição — e é bem menos frequente na prática ambulatorial.

Em um estudo com pacientes ambulatoriais submetidos a neuroimagem por dor de cabeça, achados relevantes apareceram em cerca de 3% daqueles que tinham algum sinal de alerta documentado [6]. Mesmo entre pessoas com motivo aparente para investigar, portanto, a maioria dos exames volta sem alteração que explique a dor.

Os tipos mais comuns e como se distinguem

A classificação usada internacionalmente é a ICHD-3, da International Headache Society, que define cada tipo de cefaleia por critérios de duração, características e sintomas associados [1].

Enxaqueca. Crises de horas a alguns dias, dor frequentemente pulsátil e de um lado, que piora com esforço físico e vem acompanhada de náusea, sensibilidade à luz ou ao som. Costuma incapacitar durante a crise.

Cefaleia do tipo tensional. Dor em aperto ou peso, dos dois lados, de intensidade leve a moderada, sem náusea significativa e sem piora com atividade física.

Cefaleia em salvas. Crises curtas e muito intensas em volta de um olho, com lacrimejamento, olho vermelho ou nariz entupido do mesmo lado, agrupadas em períodos de semanas. É rara e tem manejo próprio [2].

Como o diagnóstico é feito

A consulta reconstrói o padrão: quando começou, com que frequência ocorre, quanto dura, o que desencadeia, o que alivia e quantos dias por mês você usa analgésico. Um diário de cefaleia preenchido por algumas semanas é uma das ferramentas mais úteis nessa etapa [2].

O exame de imagem entra quando a história ou o exame neurológico apontam para causa secundária — não como rotina para cefaleia primária estável [2,6].

Cefaleia por uso excessivo de analgésico

É uma causa comum e pouco conhecida de dor de cabeça que se tornou diária. Ocorre quando alguém com enxaqueca ou cefaleia tensional passa a usar medicação para crise com muita frequência, e o próprio uso mantém a dor [5].

O quadro é definido por dor em 15 ou mais dias por mês associada ao uso excessivo de medicação aguda, em quem já tinha cefaleia prévia [5]. O tratamento envolve reduzir ou interromper a medicação em excesso — sempre com orientação médica — e iniciar tratamento preventivo adequado [5].

Princípios de tratamento

O tratamento tem duas frentes, descritas aqui por classe terapêutica. Doses e escolhas específicas são definidas em consulta.

Tratamento agudo, para encerrar a crise: analgésicos simples, anti-inflamatórios não esteroidais e, na enxaqueca, agonistas de receptores de serotonina (triptanos). Classes mais recentes incluem antagonistas do receptor de CGRP e agonistas seletivos 5-HT1F [3,4].

Tratamento preventivo, para reduzir frequência e intensidade quando as crises são numerosas ou incapacitantes: betabloqueadores, antidepressivos, anticonvulsivantes, bloqueadores de canal de cálcio e anticorpos monoclonais anti-CGRP [3,4]. Terapias não farmacológicas — terapia cognitivo-comportamental, biofeedback, técnicas de relaxamento e neuromodulação — também têm lugar reconhecido [4].

Na enxaqueca crônica há ainda a opção da toxina botulínica, com critérios próprios de indicação e de cobertura: Toxina botulínica para enxaqueca: critérios e cobertura pelo plano.

Enxaqueca com aura e risco cardiovascular

Aura é o conjunto de sintomas neurológicos transitórios que pode preceder a dor — mais frequentemente visuais, como pontos luminosos ou falha no campo visual, com duração de minutos.

A enxaqueca com aura é reconhecida como fator de risco para AVC isquêmico, e esse risco se soma a fatores vasculares como hipertensão, diabetes, obesidade e fibrilação atrial [7].

A conduta é direta: quem tem aura deve ter pressão, glicemia e perfil lipídico acompanhados, e deve conversar com o médico sobre tabagismo e sobre contraceptivo hormonal combinado. Não é motivo para alarme, é motivo para acompanhamento.

Se a tontura é o sintoma dominante, veja também Tontura de origem neurológica.

Quando procurar atendimento

Procure pronto-socorro ou acione o SAMU (192) se houver:

  • Dor de cabeça de início súbito que atinge intensidade máxima em segundos a minutos
  • Dor de cabeça com fraqueza, dormência ou alteração da fala
  • Dor de cabeça com febre e rigidez de nuca
  • Dor de cabeça após traumatismo de cabeça
  • Dor de cabeça com alteração da visão ou do nível de consciência

Procure avaliação neurológica agendada se: a dor mudou de padrão, a frequência aumentou, o uso de analgésico para dor de cabeça se tornou frequente, ou a dor começou depois dos 50 anos.

Perguntas frequentes

Preciso fazer ressonância para descobrir se é enxaqueca? Na maioria dos casos, não. A enxaqueca é diagnosticada por critérios clínicos, e a imagem é reservada para situações em que a história ou o exame sugerem causa secundária [1,2,6].

Enxaqueca tem cura? Não se descreve cura, e sim controle. O objetivo do tratamento é reduzir a frequência e a intensidade das crises e devolver funcionalidade, o que é acompanhado com o diário de cefaleia ao longo dos meses [3,4].

Tomo remédio para dor quase todo dia. Isso pode estar piorando? Pode. O uso frequente de medicação para crise pode manter a dor de cabeça em vez de aliviá-la [5]. A retirada deve ser feita com orientação médica, não por conta própria.

Qual a diferença entre enxaqueca e cefaleia tensional? A enxaqueca costuma ser de um lado, pulsátil, piora com esforço e vem com náusea ou sensibilidade à luz. A tensional é em aperto, dos dois lados e não piora com atividade física [1].


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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.


Referências

  1. Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018;38(1):1-211. DOI: https://doi.org/10.1177/0333102417738202 (PMID: 29368949)
  2. Steiner TJ, Jensen R, Katsarava Z, Linde M, MacGregor EA, Osipova V, et al. Aids to management of headache disorders in primary care (2nd edition): on behalf of the European Headache Federation and Lifting The Burden: the Global Campaign against Headache. J Headache Pain. 2019;20(1):57. DOI: https://doi.org/10.1186/s10194-018-0899-2 (PMID: 31113373)
  3. Ornello R, Caponnetto V, Ahmed F, et al. Evidence-based guidelines for the pharmacological treatment of migraine, summary version. Cephalalgia. 2025;45(4):3331024251321500. DOI: https://doi.org/10.1177/03331024251321500 (PMID: 40277321)
  4. Ailani J, Burch RC, Robbins MS; American Headache Society. The American Headache Society Consensus Statement: Update on integrating new migraine treatments into clinical practice. Headache. 2021;61(7):1021-1039. DOI: https://doi.org/10.1111/head.14153 (PMID: 34160823)
  5. Ashina S, Terwindt GM, Steiner TJ, Lee MJ, Porreca F, Tassorelli C, et al. Medication overuse headache. Nat Rev Dis Primers. 2023;9(1):5. DOI: https://doi.org/10.1038/s41572-022-00415-0 (PMID: 36732518)
  6. Young NP, Elrashidi MY, McKie PM, Ebbert JO. Neuroimaging utilization and findings in headache outpatients: Significance of red and yellow flags. Cephalalgia. 2018;38(12):1841-1848. DOI: https://doi.org/10.1177/0333102418758282 (PMID: 29433347)
  7. McCain CR, Parrish MH, Melikov P, Rosamond WD, Sengupta S, Spinale F, et al. Introducing a risk score for predicting ischemic stroke in migraine with or without visual aura. Cephalalgia. 2025;45(10):3331024251388094. DOI: https://doi.org/10.1177/03331024251388094 (PMID: 41117320)

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