A maior parte das dores de garganta é viral e passa sozinha. A cirurgia entra quando os episódios de infecção se repetem em uma frequência definida por critério, ou quando as amígdalas obstruem a respiração durante o sono. Contar e documentar os episódios é o que sustenta a indicação.
Viral ou bacteriana: a diferença muda a conduta
Amigdalite viral costuma vir acompanhada de tosse, coriza, rouquidão e conjuntivite. Melhora sozinha e não responde a antibiótico.
A infecção por estreptococo do grupo A tende a poupar a tosse e a somar febre, exsudato nas amígdalas e gânglios cervicais dolorosos. Uma revisão de evidências publicada em 2024 registra que apenas cerca de 10% dos adultos que procuram atendimento por dor de garganta têm estreptococo, embora 60% ou mais recebam antibiótico [1].
Por isso a conduta correta não é olhar a garganta e prescrever. É aplicar critério clínico e, quando o quadro for duvidoso, testar antes de tratar [1].
Os números que sustentam a indicação cirúrgica
A diretriz de amigdalectomia em crianças da Academia Americana de Otorrinolaringologia é explícita, e os mesmos limiares são citados como referência na avaliação de adultos [1,2].
Pode-se considerar a cirurgia por infecção de repetição quando há:
- 7 ou mais episódios no último ano, ou
- 5 ou mais episódios por ano nos últimos 2 anos, ou
- 3 ou mais episódios por ano nos últimos 3 anos [2].
Cada episódio precisa estar registrado em prontuário como dor de garganta acompanhada de pelo menos um destes: temperatura acima de 38,3 °C, gânglios cervicais aumentados, exsudato nas amígdalas ou teste positivo para estreptococo do grupo A [2].
Abaixo desses números, a mesma diretriz faz recomendação forte de conduta expectante, não de cirurgia [2]. É o critério mais ignorado da otorrinolaringologia.
O que pesa mesmo sem bater o número
A diretriz prevê fatores modificadores que podem favorecer a cirurgia em quem não atinge o limiar: alergia ou intolerância a múltiplos antibióticos, síndrome PFAPA e história de mais de um abscesso peritonsilar [2].
Há ainda a indicação por obstrução: criança com apneia obstrutiva documentada em polissonografia e hipertrofia de amígdalas tem recomendação de amigdalectomia [2].
Essa é indicação diferente da infecciosa, e está detalhada na página sobre adenoide e adenoidectomia e na página sobre apneia do sono e ronco.
Abscesso peritonsilar
É a coleção de pus ao lado da amígdala. Cursa com dor intensa de um lado só, dificuldade para abrir a boca, voz abafada e desvio da úvula. É quadro de atendimento imediato, não de espera.
O tratamento pode ser punção, drenagem por incisão ou amigdalectomia no mesmo tempo, e a escolha depende do caso e do serviço [3]. Um episódio isolado não indica cirurgia por si; mais de um episódio entra como fator modificador [2].
Caseum: indicação relativa
Caseum são grumos esbranquiçados que se formam nas criptas das amígdalas e causam mau hálito e sensação de corpo estranho. É queixa frequente e, isoladamente, é indicação relativa — quem opera por caseum opera por incômodo persistente, depois de tentativas conservadoras, e não por risco [4].
O que a cirurgia resolve e o que não resolve
Resolve: amigdalite. Removidas as amígdalas, não há mais amigdalite.
Não resolve: dor de garganta. Faringite viral continua acontecendo, porque a faringe permanece.
Uma revisão Cochrane mostra que o efeito sobre o número de dores de garganta em crianças é modesto: em média três episódios no primeiro ano após a cirurgia contra 3,6 no grupo não operado, e um dos três é o episódio previsível do próprio pós-operatório [5].
Em adultos, o ensaio britânico NATTINA comparou cirurgia com manejo conservador e encontrou mediana de 23 dias de dor de garganta em dois anos no grupo operado contra 30 dias no grupo conservador; eventos adversos relacionados à cirurgia ocorreram em 39% dos participantes operados, o mais comum sendo sangramento, em 19% [6].
Esses números descrevem populações estudadas e não preveem o caso individual. Eles existem no texto para que a decisão seja tomada com a dimensão real do ganho.
Riscos, pós-operatório e a placa branca
Os riscos relevantes são sangramento precoce e tardio, dor e dificuldade de ingestão. A diretriz orienta que o serviço acompanhe e registre sangramentos ocorridos nas primeiras 24 horas e depois delas [2].
Em adultos, um estudo prospectivo descreve dor que se mantém relativamente constante nos primeiros sete dias e começa a ceder por volta do oitavo [7].
A placa branca que aparece na loja amigdaliana nos dias seguintes é fibrina, não pus. É o aspecto normal da cicatrização de uma ferida aberta na garganta. Assusta muita gente, inclusive quem já foi avisado. O que exige contato imediato não é a placa: é sangramento.
Quando procurar atendimento
- Qualquer sangramento pela boca no pós-operatório, mesmo pequeno e mesmo que pare: procure atendimento no mesmo momento.
- Dor de garganta intensa de um lado, com dificuldade de abrir a boca ou de engolir a própria saliva: emergência.
- Dor de garganta há mais de 15 dias, sem melhora: agende avaliação.
- Episódios repetidos: leve os registros médicos de cada um. Sem documentação, não há critério.
Perguntas frequentes
Tirar as amígdalas baixa a imunidade? As amígdalas fazem parte do tecido linfoide, mas não são a imunidade da pessoa. As diretrizes de indicação não trazem imunodeficiência como consequência esperada da cirurgia [2].
Adulto sofre mais que criança? A recuperação em adulto costuma ser mais dolorosa e mais longa [5,7]. Isso entra na conversa antes de decidir.
Dá para tratar caseum sem operar? Muitas vezes sim, com medidas conservadoras. A cirurgia é reservada a incômodo persistente [4].
Ainda vou ter dor de garganta depois? Sim, é possível. A cirurgia elimina a amigdalite, não a faringite [5].
Leia também: Apneia do sono e ronco e Sinusite aguda e crônica
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
Hamilton JL, McCrea L 2nd. Streptococcal Pharyngitis: Rapid Evidence Review. Am Fam Physician. 2024;109(4):343-349. (PMID: 38648833) [Registro sem DOI na base]
Mitchell RB, Archer SM, Ishman SL, Rosenfeld RM, Coles S, Finestone SA, et al. Clinical Practice Guideline: Tonsillectomy in Children (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2019;160(1_suppl):S1-S42. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599818801757 (PMID: 30798778)
Hahn J, Barth I, Wigand MC, Mayer B, Hoffmann TK, Greve J. The Surgical Treatment of Peritonsillar Abscess: A Retrospective Analysis in 584 Patients. Laryngoscope. 2021;131(12):2706-2712. DOI: https://doi.org/10.1002/lary.29677 (PMID: 34111309)
Arvisais-Anhalt S, Quinn A, Bishop JA, Wang CS, Mitchell RB, Johnson RF, et al. Palatine Tonsilloliths: A Multi-institutional Study of Adult Patients Undergoing Tonsillectomy. Otolaryngol Head Neck Surg. 2020;163(4):743-749. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599820921392 (PMID: 32366151)
Burton MJ, Glasziou PP, Chong LY, Venekamp RP. Tonsillectomy or adenotonsillectomy versus non-surgical treatment for chronic/recurrent acute tonsillitis. Cochrane Database Syst Rev. 2014;2014(11):CD001802. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD001802.pub3 (PMID: 25407135)
Wilson JA, O'Hara J, Fouweather T, Homer T, Stocken DD, Vale L, et al. Conservative management versus tonsillectomy in adults with recurrent acute tonsillitis in the UK (NATTINA): a multicentre, open-label, randomised controlled trial. Lancet. 2023;401(10393):2051-2059. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(23)00519-6 (PMID: 37209706)
Stoeckli SJ, Moe KS, Huber A, Schmid S. A prospective randomized double-blind trial of fibrin glue for pain and bleeding after tonsillectomy. Laryngoscope. 1999;109(4):652-655. DOI: https://doi.org/10.1097/00005537-199904000-00025 (PMID: 10201758)
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