Resolve, quando resolve, a dor daquela fratura — e apenas dela. Não trata a osteoporose, não impede a próxima e é um dos temas mais controversos da coluna, com ensaios de alta qualidade discordando entre si.
O quadro da fratura, a investigação e o tratamento conservador estão em fratura vertebral por osteoporose. Aqui o assunto é o procedimento.
O que cada procedimento faz
Nos dois, injeta-se cimento ósseo dentro do corpo vertebral fraturado, por via percutânea e com auxílio de imagem. O objetivo é estabilizar o osso que colapsou e, com isso, reduzir a dor mecânica.
Na vertebroplastia, o cimento é injetado direto no osso esponjoso.
Na cifoplastia, insufla-se antes um balão dentro da vértebra, criando uma cavidade e tentando recuperar parte da altura perdida. O cimento é depositado nesse espaço, com pressão menor.
A controvérsia, dita com franqueza
O lado que não encontra benefício. Uma revisão Cochrane reuniu 21 ensaios. Nas cinco comparações contra procedimento simulado — em que o grupo controle passava por uma intervenção com a mesma aparência, sem receber cimento —, evidência de qualidade alta a moderada mostrou ausência de benefício clinicamente importante em dor, incapacidade, qualidade de vida ou sucesso do tratamento em um mês, independentemente do tempo de dor.
Os autores observam que os estudos abertos, comparando cimento com tratamento habitual, provavelmente superestimaram o efeito [1].
O lado que encontra benefício em um subgrupo. Um ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por procedimento simulado, restrito a fraturas com menos de seis semanas e dor intensa mal controlada, encontrou vantagem do cimento: 44% do grupo tratado atingiram dor abaixo de 4 em 10 aos 14 dias, contra 21% do controle [2].
Por que os dois existem? Porque testaram populações diferentes. A leitura razoável é a que se depreende dos dois: como conduta de rotina, o procedimento não se sustenta na evidência de melhor qualidade; permanece em aberto um subgrupo estreito.
Quem tende a se beneficiar mais
O perfil que se aproxima do que foi estudado com resultado favorável:
- fratura recente, ainda em fase aguda;
- dor intensa, mal controlada com o tratamento clínico prescrito;
- dor claramente mecânica — piora ao levantar-se e ao mudar de posição, alivia deitado;
- correspondência entre o nível da fratura e o local da dor, com imagem que mostre edema ósseo;
- pessoa imobilizada pela dor, com risco de perda funcional e de complicações do repouso.
Quem tende a não se beneficiar: quem tem fratura antiga já consolidada, quem tem dor difusa que não corresponde ao nível, e quem já está com a dor controlada pelo tratamento clínico.
Como é o procedimento
É percutâneo, com anestesia local e sedação, ou geral, conforme a avaliação. O paciente fica de bruços; a agulha é introduzida através do pedículo até o corpo vertebral, sob imagem contínua, e o cimento é injetado devagar, com a distribuição monitorada em tempo real. A permanência costuma ser curta e a mobilização, precoce.
Complicações
Extravasamento de cimento. É a complicação mais frequente. Na maior parte das vezes é assintomática e vista apenas na imagem, mas o cimento pode escapar para o disco, para o canal vertebral ou para veias. Metanálises mostram que a taxa varia conforme a técnica empregada [3]. Para o canal, pode comprimir estruturas nervosas; para as veias, pode migrar para o pulmão.
Fratura de nível adjacente. As vértebras vizinhas a um segmento cimentado podem receber distribuição diferente de carga. Estudos de modelagem biomecânica mostram aumento de tensão nos corpos adjacentes quando há extravasamento para o disco [4]. A revisão Cochrane não conseguiu concluir se o procedimento aumenta o risco de novas fraturas sintomáticas, por número pequeno de eventos [1] — incerteza, não segurança demonstrada.
Eventos adversos graves. A mesma revisão registra ocorrências como osteomielite e compressão medular entre os eventos relatados após vertebroplastia [1]. São incomuns, e são reais. Somam-se os riscos de qualquer punção.
O ponto que não pode faltar: o cimento não trata o osso
O procedimento trata uma fratura. A doença é a osteoporose, e ela continua exatamente igual no dia seguinte.
Uma fratura vertebral é o aviso mais forte que o esqueleto dá: associa-se a risco várias vezes maior de novas fraturas [5]. E tratar o osso é justamente o que mais falha na prática. Em um estudo com quase três mil pacientes atendidos com fratura vertebral em um centro terciário, 98% não realizaram densitometria no período avaliado, 73% nunca receberam prescrição de medicação antirreabsortiva — e 38% tiveram uma segunda fratura por fragilidade em dois anos [6].
Aceitar o cimento e sair sem investigação de osteoporose, sem tratamento medicamentoso quando indicado e sem prevenção de quedas é tratar o sintoma e deixar a doença andando.
Quando procurar atendimento
Procure pronto-socorro imediatamente, antes ou depois do procedimento, diante de:
- perda de força nas pernas ou dificuldade nova para andar;
- dormência na região do períneo, ou perda de controle da urina ou das fezes;
- falta de ar súbita ou dor no peito após o procedimento;
- febre com dor nas costas em piora.
Procure avaliação em dias se a dor mudar de padrão, se surgir dor em outro nível, ou se você ainda não tiver iniciado a investigação do osso.
Perguntas frequentes
A cifoplastia é melhor que a vertebroplastia? A evidência de melhor qualidade contra procedimento simulado se refere à vertebroplastia [1]. Não é correto transportar resultados de uma para a outra, em nenhuma direção.
O cimento sai do lugar com o tempo? Ele endurece dentro da vértebra e permanece ali. O que muda com o tempo é o osso ao redor — por isso tratar a osteoporose importa.
Se eu não fizer, vou ficar com a coluna torta? Nem toda fratura evolui para deformidade, e a maior parte é tratada sem cirurgia. Quando a deformidade vira o problema principal, a conversa está em escoliose e deformidade do adulto.
Posso fazer em fratura antiga? O subgrupo com evidência favorável é o de fratura recente com dor intensa [2]. Fratura já consolidada tende a não se beneficiar.
Leia também
- Fratura vertebral por osteoporose: o que fazer
- Emergências da coluna: quando ir ao pronto-socorro
- Escoliose do adulto: dor, limitação e decisão
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Referências
- Buchbinder R, Johnston RV, Rischin KJ, Homik J, Jones CA, Golmohammadi K, et al. Percutaneous vertebroplasty for osteoporotic vertebral compression fracture. Cochrane Database Syst Rev. 2018;11(11):CD006349. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD006349.pub4 (PMID: 30399208)
- Clark W, Bird P, Gonski P, Diamond TH, Smerdely P, McNeil HP, et al. Safety and efficacy of vertebroplasty for acute painful osteoporotic fractures (VAPOUR): a multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2016;388(10052):1408-16. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(16)31341-1 (PMID: 27544377)
- Kou YH, Zhang DY, Zhang JD, Han N, Yang M. Vertebroplasty with high-viscosity cement versus conventional kyphoplasty for osteoporotic vertebral compression fractures: a meta-analysis. ANZ J Surg. 2022;92(11):2849-58. DOI: https://doi.org/10.1111/ans.17894 (PMID: 35785463)
- Meng H, Li Q, Lin J, Yang Y, Fei Q. Intradiscal cement leakage (ICL) increases the stress on adjacent vertebrae after kyphoplasty for osteoporotic vertebra compression fracture (OVCF): a finite-element study. Sci Rep. 2023;13(1):15984. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-023-43375-5 (PMID: 37749207)
- LeBoff MS, Greenspan SL, Insogna KL, Lewiecki EM, Saag KG, Singer AJ, et al. The clinician's guide to prevention and treatment of osteoporosis. Osteoporos Int. 2022;33(10):2049-102. DOI: https://doi.org/10.1007/s00198-021-05900-y (PMID: 35478046)
- Barton DW, Behrend CJ, Carmouche JJ. Rates of osteoporosis screening and treatment following vertebral fracture. Spine J. 2019;19(3):411-17. DOI: https://doi.org/10.1016/j.spinee.2018.08.004 (PMID: 30142455)
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