Leve as imagens dos exames anteriores — não apenas os laudos —, a lista completa de tudo o que você toma e, se a queixa for de memória ou de crise convulsiva, alguém que tenha presenciado o episódio.
A consulta de neurologia é, em boa parte, a reconstrução de uma história. O exame físico e os exames complementares vêm depois dessa reconstrução e respondem às perguntas que ela levantou. Uma consulta bem preparada costuma encurtar o caminho até a resposta.
Exames anteriores: as imagens importam mais que o laudo
Se você já fez ressonância, tomografia, eletroencefalograma ou eletroneuromiografia, leve a mídia com as imagens ou o acesso ao portal do serviço, além do laudo em papel.
O laudo é a leitura que outro profissional fez do exame, em outro contexto e sem a sua história atual. As imagens permitem comparar com o quadro de hoje, verificar se a sequência realizada respondia à pergunta certa e evitar repetir um exame que já existe. Um laudo sozinho raramente permite isso.
Vale o mesmo para exames de sangue, relatórios de internação e receitas antigas.
A lista de medicações precisa incluir o que não tem receita
Escreva tudo: medicamentos de uso contínuo, os usados só quando o sintoma aparece, e também vitaminas, suplementos, fitoterápicos e produtos sem receita. Esse último grupo é o que mais escapa da conversa.
Um levantamento prospectivo em um ambulatório norte-americano registrou que mais da metade dos pacientes acompanhados usava suplementos, com parte deles tomando três ou mais por dia, e os autores destacam justamente o subrelato desse uso ao médico [1].
Em neurologia isso pesa: analgésicos comprados livremente estão no centro da cefaleia por uso excessivo de medicação, e revisões sobre adesão em cefaleia recomendam explicitamente que o levantamento inclua medicamentos sem receita [2].
Anote o princípio ativo, para que serve e há quanto tempo você usa — ou fotografe as caixas.
Histórico familiar: o que perguntar antes de vir
Enxaqueca, epilepsia, AVC precoce, tremor, doenças neuromusculares e quadros de demência têm componente familiar relevante em parte dos casos. Antes da consulta, pergunte aos pais e irmãos o que houve na família e em que idade começou. "Não sei" também é resposta útil — desde que você tenha perguntado.
O diário do sintoma vale mais que a memória do sintoma
Se o sintoma é recorrente — dor de cabeça, tontura, episódios de perda de contato —, registre três coisas em qualquer papel ou aplicativo: quando aconteceu, quanto durou e o que estava acontecendo antes.
Isso não é uma escala de autoavaliação e não serve para você chegar a um diagnóstico. Serve para descrever frequência e padrão com precisão, algo que a memória retrospectiva reproduz mal.
O diário é uma das formas de registro mais usadas em cefaleia, ainda que a literatura sobre adesão mostre grande variação entre pacientes e entre métodos [2]. Em cefaleia da infância e adolescência, um estudo italiano encontrou mediana de 20 meses entre o início das crises e o diagnóstico correto — parte disso ligada à imprecisão da história inicial [3].
Registre a partir de hoje, sem tentar reconstruir meses para trás.
Quando o acompanhante não é opcional
Em duas situações, vir sozinho limita a consulta.
Queixa de memória. Quem convive com a pessoa observa o que ela não observa. Uma revisão Cochrane concluiu que a acurácia de um questionário de informante na atenção primária não está estabelecida [4] — o que reforça que o valor está na conversa com quem convive, não em um escore.
Crise convulsiva ou desmaio. Aqui o motivo é direto: a pessoa não vê o próprio evento. E a testemunha também erra.
Em um estudo em que estudantes assistiram, sem aviso, a vídeos de uma crise tônico-clônica e de um desmaio, apenas 44% das respostas sobre o desmaio e 60% sobre a crise foram corretas; o tônus muscular foi o item mais bem lembrado [5]. Por isso a testemunha é convidada a descrever o que viu, e não a dizer o que acha que era — e por isso um vídeo feito por quem estava presente costuma acrescentar mais do que qualquer relato.
O que esperar do exame neurológico
Não dói e não usa agulha nem corrente elétrica. É um exame de observação e de manobras simples: força, sensibilidade, reflexos, coordenação, equilíbrio, marcha, movimentos dos olhos e da face, fala e uma avaliação breve de atenção e memória.
Vá com roupa que permita expor braços e pernas e calçado que você consiga tirar; leve óculos e aparelho auditivo, se usa. O pedido de exames costuma sair da consulta — e não antes dela. Se sair um eletroencefalograma, o preparo começa em casa.
Quando procurar atendimento
Não espere a consulta agendada. Acione o SAMU (192) diante de fraqueza ou dormência de um lado do corpo, alteração da fala, desvio da boca ou perda visual de início súbito. Veja AVC.
Vá ao pronto-socorro se houver crise convulsiva com mais de cinco minutos, crises repetidas sem recuperação entre elas, primeira crise da vida, ou dor de cabeça de início súbito que atinge a intensidade máxima em segundos.
Antecipe a consulta se o sintoma que motivou o agendamento mudar de padrão ou piorar de forma consistente enquanto você aguarda.
Perguntas frequentes
Não achei o laudo do meu exame antigo. Vale a pena levar só o CD? Sim. A imagem é o que permite a releitura. Se tiver só o laudo, leve o laudo; se tiver só a imagem, leve a imagem.
Preciso levar o diário pronto na primeira consulta? Não. Ele ajuda mais no retorno, quando já existe uma hipótese a confirmar. Comece a registrar a partir de agora.
Meu acompanhante não viu a crise. Adianta levar? Ajuda menos. Quem presenciou é quem acrescenta informação. Se ninguém puder vir, peça a essa pessoa que escreva ou grave um áudio descrevendo o que viu, do início ao fim do episódio.
Devo suspender algum remédio antes da consulta? Não. Suspender por conta própria muda o quadro e atrapalha a avaliação. Qualquer ajuste é orientado na consulta.
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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação individual.
Referências
- Lindholm EB, Gupta MK, Boudreaux JP, Burns LA, Wang YZ, Woltering EA. The incidence of over-the-counter medication use in patients with midgut neuroendocrine tumors. Am Surg. 2015;81(3):278-281. (PMID: 25760204)
- Ramsey RR, Ryan JL, Hershey AD, Powers SW, Aylward BS, Hommel KA. Treatment adherence in patients with headache: a systematic review. Headache. 2014;54(5):795-816. DOI: https://doi.org/10.1111/head.12353 (PMID: 24750017)
- Colombo B, Dalla Libera D, De Feo D, Pavan G, Annovazzi PO, Comi G. Delayed diagnosis in pediatric headache: an outpatient Italian survey. Headache. 2011;51(8):1267-1273. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1526-4610.2011.01976.x (PMID: 21884081)
- Burton JK, Fearon P, Noel-Storr AH, McShane R, Stott DJ, Quinn TJ. Informant Questionnaire on Cognitive Decline in the Elderly (IQCODE) for the detection of dementia within a general practice (primary care) setting. Cochrane Database Syst Rev. 2021;7(7):CD010771. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD010771.pub3 (PMID: 34278564)
- Thijs RD, Wagenaar WA, Middelkoop HAM, Wieling W, van Dijk JG. Transient loss of consciousness through the eyes of a witness. Neurology. 2008;71(21):1713-1718. DOI: https://doi.org/10.1212/01.wnl.0000335165.68893.b0 (PMID: 19015487)
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