Não dói: incomoda. A sensação predominante é de pressão dentro do nariz e vontade de espirrar ou engasgar por alguns segundos, e não de dor. Nos estudos que mediram isso com escala, a tolerância relatada por pacientes e examinadores foi alta, e a maioria diria sim a repetir o exame.
O que o exame vê e por que ele é pedido
Um endoscópio fino e flexível entra pela narina e percorre o caminho do ar: cavidade nasal, cornetos, septo, saída dos seios da face, adenoide, faringe e laringe em funcionamento. A imagem aparece na tela, e o exame pode ser gravado.
Ele é pedido porque nenhuma outra coisa mostra isso. Nas queixas de voz, a diretriz de disfonia recomenda visualizar a laringe quando a rouquidão não melhora em quatro semanas — ou antes, independentemente da duração, quando há suspeita de causa séria — e recomenda contra pedir tomografia ou ressonância antes de olhar a laringe [1].
Na investigação de nódulo cervical com risco aumentado de malignidade, a diretriz orienta exame dirigido que inclua a visualização da mucosa da laringe, da base da língua e da faringe [2].
Traduzindo: em várias situações, o exame de imagem caro não substitui os minutos do endoscópio. O que cada exame de otorrino responde está reunido em exames de otorrino.
A sensação real, segundo quem mediu
Este é o ponto em que a internet exagera nas duas direções. Os dados disponíveis são razoavelmente consistentes.
Num ensaio randomizado com 376 pacientes submetidos a laringoscopia flexível transnasal, quatro preparações tópicas foram comparadas — inclusive gel aquoso sem anestésico. Os escores de dor e a facilidade de realizar o procedimento foram comparáveis entre os grupos, assim como reflexo de vômito, dificuldade para engolir depois, sensação de bolo na garganta e disposição de repetir o exame [3].
O único achado que separou os grupos foi desfavorável a uma das preparações anestésicas, que provocou ardência significativamente maior.
Num estudo prospectivo com 108 pacientes, pacientes e médicos relataram tolerância muito alta ao exame, e a má tolerância foi registrada em 6,5% dos casos [4]. A experiência prévia não mudou o resultado.
Ou seja: para a maioria das pessoas o exame é um desconforto breve; para uma minoria é claramente ruim. Se você for dessa minoria, diga — existe conduta para isso, e ela começa por avisar antes, não durante.
O anestésico tópico: o que ele faz e o que não faz
Costuma-se aplicar spray ou gel no nariz antes do exame, muitas vezes combinado a um vasoconstritor, que desincha o corneto e alarga o caminho.
A evidência é mais sutil do que "com anestésico não dói". Um ensaio randomizado com 120 pacientes encontrou redução de dor e de desconforto com lidocaína tópica em comparação com placebo, e um dado útil: o exame nasal completo e bilateral incomoda mais do que o exame dirigido à laringe, e é nele que o anestésico faz mais diferença [5]. Já o estudo com 376 pacientes não encontrou vantagem de nenhuma preparação anestésica sobre gel aquoso [3].
Na prática, a escolha da preparação é do examinador e varia entre serviços. O que muda a sua experiência mais do que o produto é o quanto o exame precisa percorrer.
Precisa de jejum? E de acompanhante?
Na maioria das situações, não e não. O exame é feito com você sentado, acordado, sem sedação, e você sai andando e dirige depois. Se o seu serviço fizer o exame com sedação — exceção, com indicação própria —, aí valem jejum e acompanhante, e isso será informado no agendamento.
Informe sempre: uso de anticoagulante ou antiagregante, sangramentos nasais frequentes, cirurgia nasal recente e alergia a anestésico. Nada disso impede o exame, mas muda o preparo.
Quanto tempo dura
Poucos minutos. A passagem do endoscópio é a parte mais rápida; o tempo é gasto olhando com calma cada região e, quando é o caso, pedindo que você fale, sustente um som, engula ou respire fundo — porque a laringe precisa ser vista funcionando, não parada.
Em criança
Depende da idade e da colaboração. Crianças maiores costumam tolerar bem quando o exame é explicado antes, com a criança no colo do adulto e sem surpresa.
Em crianças pequenas, o exame é rápido e dirigido — quase sempre para avaliar adenoide e obstrução nasal. Não prometa que "não vai sentir nada": explique que vai incomodar por alguns segundos e que ela vai poder respirar o tempo todo. Ver otorrinopediatria e adenoide.
Quando o resultado sai
Quase sempre na hora. O exame é feito e interpretado pelo próprio médico, com a imagem na tela, e é comum que ele já mostre e explique o achado ali. O documento escrito, com imagens, costuma ser entregue depois, em prazo que varia com o serviço.
Quando procurar atendimento
Sinais que não devem esperar agenda longa:
- Rouquidão que persiste além de três a quatro semanas, sobretudo em quem fuma — precisa de visualização da laringe [1]
- Nódulo no pescoço presente há duas semanas ou mais, sem quadro infeccioso que o explique — ver cabeça e pescoço [2]
- Dificuldade para engolir progressiva, engasgos ou perda de peso associada
- Falta de ar, chiado ao inspirar ou voz que sumiu com dificuldade respiratória — pronto-socorro
- Sangramento nasal repetido de uma narina só
Perguntas frequentes
Vou engasgar ou vomitar? Pode haver ânsia por alguns segundos quando o aparelho passa pela garganta. Nos estudos que mediram, o reflexo de vômito foi comparável entre diferentes preparações e não foi o principal motivo de má tolerância [3].
Posso fazer se tenho o nariz muito desviado? Sim. O examinador escolhe o lado mais amplo e usa vasoconstritor para abrir a passagem. Desvio acentuado pode tornar o exame mais desconfortável de um lado.
Sangra? Pode haver estrias de sangue no muco depois, especialmente em mucosa seca ou em quem usa anticoagulante. Sangramento ativo após o exame é incomum e deve ser comunicado.
Vou poder falar e comer depois? Sim. Se foi usado anestésico na garganta, espere a sensação voltar ao normal antes de comer ou beber algo quente.
Leia também: Exames de otorrino · Rouquidão, nódulo vocal e laringite · O que levar na primeira consulta com otorrino
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Referências
Stachler RJ, Francis DO, Schwartz SR, Damask CC, Digoy GP, Krouse HJ, et al. Clinical Practice Guideline: Hoarseness (Dysphonia) (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2018;158(1_suppl):S1-S42. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599817751030 (PMID: 29494321)
Pynnonen MA, Gillespie MB, Roman B, Rosenfeld RM, Tunkel DE, Bontempo L, et al. Clinical Practice Guideline: Evaluation of the Neck Mass in Adults. Otolaryngol Head Neck Surg. 2017;157(2_suppl):S1-S30. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599817722550 (PMID: 28891406)
Joy AK, Philip A, Mathews SS, Albert RRA. Transnasal Flexible Laryngoscopy Using Different Topical Preparations and Methods of Application—A Randomized Study. J Voice. 2022;36(6):847-852. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jvoice.2020.10.009 (PMID: 33092947)
Young VN, Smith LJ, Rosen CA. Comparison of tolerance and cost-effectiveness of two nasal anesthesia techniques for transnasal flexible laryngoscopy. Otolaryngol Head Neck Surg. 2014;150(4):582-6. DOI: https://doi.org/10.1177/0194599813519952 (PMID: 24496740)
Bonaparte JP, Corsten M, Odell M, Kilty S. Pain and discomfort during flexible nasolaryngoscopy: a randomized, controlled trial assessing the efficacy of oral mouthwash and topical lidocaine. J Otolaryngol Head Neck Surg. 2012;41 Suppl 1:S13-20. (PMID: 22569045) [Registro sem DOI na base]
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